Um lugar de palavras no meio do nada

Segunda-feira, Junho 25, 2007


[9:15 AM]

Mala Direta

Estou enviando por e-mail os eventuais textos que faço. Caso queira recebê-los por favor envie-me seu e-mail. E obrigado pelo

carinho de todos.

Ins




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Quarta-feira, Junho 13, 2007


[10:10 AM]

DESPEDIDA

As 33000 eventuais visitas

Certas coisas devem ser feitas apenas quando acrescentam prazer e trazem algum valor agregado. Por isto tudo tem um ciclo, até a vida, e temos que respeitá-los, saber quando ele está cumprido e não perpetuá-lo a todo custo. As vezes não conseguimos e quando não conseguimos pagamos um caro preço por isso. Mas, na grande e absoluta maioria, isto é possível. O avesso já não me dá mais prazer. Tenho outros projetos e ocupações profissionais que são meus objetivos. As demandas pessoais não são minha prioridade, no momento. Deste modo, encerro aqui, a vida do avesso. Há textos nos quais fui absolutamente feliz ao escrever, de forma plena, outros que cumpriram o objetivo só de ocupar o espaço, realidade e fantasia. A cada um de vocês leitores não estarei mais pessoalmente nem em linhas, ou entrelinhas, onde cada um se recria. Agradeço cada manifestação generosa de leitura e elogio. Houve momentos únicos de recompensa emocional. Sou, devotamente, grato. Chegou a hora do outro lado do Avesso. Aos que quiserem continuar recebendo eventuais textos que faça, mandem um mail e colocarei em uma mailing-list. Talvez um dia, eu volte..




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Segunda-feira, Junho 11, 2007


[12:02 PM]

Cantada

Eu sei. Nunca te vi. E sou o homem que se devora em tuas chamas. Nem sei onde teus pensamento se perdem, mas sei que minhas mãos grudam com força em tuas coxas imaginárias, dançando sob o vestido de flores amarelas, e te arrastam como a única salvação desta selva sem odor, sem significados, sem personalidade, de mesmice de tudo que se faz passar.

Eu me cravo em tua boca ausente e sei as mudas de cada leira plantada em teu seio, no mamilo que se fertiliza entre meus dentes e se eriçam como se fossem versos paridos no papel. Eu sei que tu sabes de homens e gozos, mas tu não sabes de poemas intímos, nem de morrer recitada em minha boca, abandonada de receios e desejos, feito concha que se prende ao casco do navio, pra viajar de mares perdidos, tu não sabes de se dissolver, partes e partes de mulher, e virar meu destino de pertencência.

Não sei teus segredos piores, nem tuas virtudes, mas sei que li todos os dicionários e eles não te traduzem pra mim, esse mistério, esta vontade inexplicável de posse, esse amor que nem é, nem há palavrões suficientes a serem gritados quando morrer em ti, nem declarações de amor imaginados a serem desenhadas na tua pele de papiro como inscrição a todos que um dia vierem, a saberem que tua beleza sem narrativas, teu dorso esculpido por um vento ancestral e teu gosto de mulher, ainda que breve, que a vida é menos do que o tempo de te ter, me fez experimentar os limites inalcançaveis de homem..

A maja desnuda- Goya






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Sexta-feira, Junho 08, 2007


[11:55 AM]


O inverno que nos alcança



Nem foi chegando devagar como visita receosa, na porta. Não, foi logo mostrando a que veio, botando banca, delimitando território como bicho recém chegado, trazendo perigo com uma trovoada destas que só ronca por aqui, para mostrar as fragilidades da cidade, despreparada e descuidosa de sua beleza. A chuva repentina e sem sovinices surpreendeu as pessoas anunciando que o outono está caminhando para seu finalzinho de domínio, as folhas começam suas despedidas, feito notícia de gente que vai se ausentar.

Depois do aviso começamos a sentir que aquele vento de fogo, seco, ácido, duro, soprado feito açoite das redondezas da caatinga, trançado na poeira, cheiro de bosta de boi e velame, vai esmaecendo, trocado por outro mais ameno, úmido, com mais pétalas de água no seu embornal.

Ele vai chegando devagar, mudando as cores dos jardins, como se tivesse vindo de muito longe, das lonjuras que só os ventos e as dores podem vir, e fosse um bando anunciador do inverno. Nas ruas do centro as mulheres já exibem casacos que cheiravam a guardado de tanto esperar e os vendedores ambulantes já oferecem guarda-chuva, nas sinaleiras. O mingau de milho, ali na praça da Alimentação, torna-se quase uma obrigação na madrugada.

As lojas de roupa, me diz Dona Tércia, da Vest, já começam a anunciar as liquidações de sua moda de verão. A noite vai esfriando, pedindo coberta e paz entre os casais pois todo mundo sabe que não se deve brigar nos tempos de frio e por aqui o povo é mais sabido do que tudo, de todo povo desta boca de sertão, a gente que fica aqui entre o recôncavo e o semi-árido, com umas lapadas de vento marítimo, que viaja das praias da Bahia e se dissolve nos outros ventos, que todo mundo sente ainda que não se aperceba.

Há o espetáculo de olhar pela janela, manhã cedo, e ainda ver a neblina que levanta devagar, com preguiça de acordar e tristeza de separar-se da cidade, cortada em fatias pelos que correm nas avenidas e madrugadores do trabalho, e pelo alto dos edifícios, que Feira já vai por bem de ter uns trinta e cinco deles, fazendo recortes no horizonte, como se fossem as montanhas que não temos. E os corações abalados pelas aventuras do verão vão se entregando feito quixotes que desistiram dos moinhos de vento e buscando o aconchego dos amores de inverno, mais delicados e permanentes.

Nas casas, os chás e o chocolate quente voltam a mesa, o café na livraria Atlântica, de Romeu, e nas tapiocarias é um prazer quase irresistível. O foundee, um estrangeirismo de gosto adotado por muitos feirenses e o vinho, prometem ser a moda da estação.

Prova que estamos mesmo prestando mais atenção à mudança do tempo é que, ousadamente, o restaurante Tomatte Secco, anuncia um festival de inverno, com temporada de jazz e MPB, dando um refresco nos ouvidos exauridos de axés, pagodes e similares. E, vez por outra, eu mesmo tenho surpreendido a lua, exposta e nua, em plena tarde, perdida de amor pela vida nos antigos becos, ou quem sabe procurando uma pamonha de Noratinho, os vaqueiros e fidalgos do Campo do Gado, a Santana dos Olhos D¿Água.

O certo é que o inverno assume oficialmente lá por vinte e um de junho, mas já galanteia a elegância das mulheres, o verde do chão, as plantações das roças e a fartura do São João. Mas eu sei e sinto que ele é apenas o meu tempo.





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