A proximidade de homem e mulher costuma ser fatal. Vítima da fome ancestral e da necessidade de preservar a espécie basta rolar uma convivência ambiental que os vestidos se incendeiam e o destino biológico se cumpre, goste o papa ou não. Aliás, como diz uma amiga, se o papa for contra é até mais excitante. O certo é que não existe regra do lado debaixo do equador e para ser sincero em nenhuma outra localização geográfica.
Embora o ato não seja dos mais belos visualmente ele é compensado pelo resultado antes, durante e depois e uma trilha sonora que, apesar de repetida exaustivamente, tem um componente tribal capaz de mover ao êxtase até os menos entusiasmados. Esta atividade fornicativa, por assim dizer, além dos benefícios às indústrias, redes hoteleiras e comércio do banco reclinável, traz consigo toda uma operação ritualista e fetichista que incluem calcinhas pretas, dançar colado coração com coração se podemos dizer assim, promessas de nunca abrir mão daquele amor e pedidos que aquele beijo inesquecível não seja dado em mais ninguém.
Acontece que embora seja gênero de primeira necessidade e da pressão biológica que chama e, às vezes grita, nem sempre o sistema pega no automático e ainda que não se fuja da luta nem tudo parece um impávido colosso. Não basta apenas desejo, paixão, amor, tesão e silicone para que um casal dê certo na cama. Nem entender só de astronomia, anatomia e enologia pois o mulherio botou na pauta do dia que o fundamental é a química. Às vezes, um detalhe, uma palavra inadequada, um gesto, uma tatuagem, põe tudo a perder.
Recentemente, tive um amigo, profissional liberal, que me procurou para conversar pois estava tendo problema na área do libidinoso. Recém separado me disse que andava rearrumando a vida, depois da tempestade econômica que é a separação, tocando a vida sem maiores aventuras. Havia decidido que passaria um longo tempo sem fixar-se com mulher nenhuma, não porque um segundo casamento fosse uma praga, como diz o representante de São Pedro, mas porque não queria nenhum desgaste emocional. Afirmou que mal dizia bom dia a uma mulher e ela já queria mudar de mala e cuia pra sua casa, ou o que restou dela. Decidiu então ficar mantendo relação só com algumas garotas de programa.
- Era tranqüilo. Elas fazem o que a gente quer, não exigem nada. Até esta última. Depois dela não consigo mais ficar com mulher nenhuma. Não funciono mais...
- Mas o que aconteceu?
- Cara, eu tava lá com a mulher nua, no embalo tradicional, me achando o tal quando ela parou no meio e falou irritada comigo.
- olha cara a gente tem de topar tudo, mas assim não dá não. Você arrotou transando comigo...
- meu amigo quando uma garota paga reclama que você arrota é o fim. Ou não é?
- Você podia ter dito que era porque estava bem alimentado. Brincadeira. Olha companheiro eu não sei não, mas por via das dúvidas é melhor você deixar a camisinha de lado e comprar uma caixa de Alka-Setzer...
O teu desejo de rameira, as violetas que nascem de teus cabelos, o jasmim de tua carne cheirando ao meu nome enquanto te lavas, as palavras que ficam prenhes de tua beleza e dança cada vez que te aproximas, é que faz assim, o mundo inerte e eu, apenas querer ser perene, nos teus devaneios...
Reza a lenda, se é que lendas rezam, que havia uma disputa entre as cidades-estado de Siena e Florença por limites territoriais. Elas combinaram que ao amanhecer, assim que o galo cantasse, um cavaleiro de cada cidade cavalgaria em direção ao outro e aonde se encontrassem seria a fronteira. Siena escolheu um galo branco, bem nutrido e Florença, um preto e mal alimentado. O de Firenze, esfomeado, acordou mais cedo, e seu cavaleiro conseguiu chegar até a vila do Castelo de Fonterutoli. Por isso a região passou a chamar-se de Gallo Nero e um galo preto ocupa até hoje os rótulos dos Chiantis, o mais celebre vinho da Itália.
Em tradições religiosas de vários países, o galo é uma criatura celestial e votiva. Simboliza a ressurreição solar e espiritual e seu canto anuncia o novo dia após um período de trevas. Nos países latinos é tradição popular a "Missa do Galo", numa alusão a lenda que conta que a única vez que um galo cantou à meia-noite foi na noite do nascimento de Jesus. Mas, sincrético, na África, ele é o animal preferido de dois dos sete orixás do Vudu: Papa Legba e Ogun. Papa Legba, ligado a São Miguel e São Pedro, é o guardião, o desenvencilhador das encruzilhadas do mundo. No Brasil, o galo é o omalá (conjunto de alimentos destinados ao Orixá ou divindade da Umbanda) de Oxun.
Reproduzido na arte cerâmica de Portugal e Itália o galo está ligado a lendas populares e na França ele é o símbolo nacional por excelência. Na poesia é o astro do mais famoso poema de João Cabral de Melo Neto, no qual um galo sozinho não tece a manhã. Certo que os galos devem ser perdoados por acordarem mais tarde, até porque passam o dia em exaustiva maratona sexual, que exercem sem pudor, satisfazendo de forma hedonista seus desejos mais carnais, com uma e com outra, quando não com alguma violência e ruidoso ritual, sem preliminares e conversa fiada. Verdade que apesar de repetitivo o ato tem a rapidez só um galo tem, embora alguma mulheres reclamem em seus parceiros da fugacidade do evento. Apesar disto não é fácil a vida de galo, com seu harém sempre ameaçado, sujeito a traição à menor desatenção ou falha no serviço doméstico, pois sabemos que as fêmeas não costumam perdoar se o carnê não está em dia.
Nem todos os galos, entretanto, têm final feliz. Morei em um condomínio, com muitas casas, todas próximas. Ganhei um galo de um paciente e o levei para casa, dando-lhe o nome de Chico Mendes, que havia sido morto. Chico tinha um relógio biológico próprio, cantando feito um desesperado durante a tarde e a noite e silenciando ao amanhecer. O que começou como insatisfação entre os vizinhos evoluiu para reunião extra de protesto contra meu galo.
Compreendendo que a sociedade não estava preparada para um despertar ecológico decidi levá-lo para a roça. Chico passou a reinar soberano, verdadeira estrela, no quintal lá de casa. Fim de semana fui almoçar com minha mãe e ela serviu um prato delicioso. Quando perguntei se era de sua criação, ela respondeu que era o Chico Mendes, que andava muito abusado. A história novamente se repetiu, para minha consternação, mas ficou a lição: toda vez que você tiver por aí cantando de galo, seja você presidente, ou o que for, é sempre bom lembrar que tem alguém amolando a faca para preparar o almoço de domingo..