Os extremos me margeiam e dilaceram. Não há fios invisiveis que me contenham. Nem redes que me amparem. Teus braços não oferecem mais proteção. Me fita, apenas, a tua face dura. E o mundo oscila...
O melhor de uma viagem, às vezes, é o que sai errado, o inesperado, o que não foi planejado nem pode ser dividido em nove vezes no cartão, nem rende milhagem. O mico é, às vezes, mais atraente que os cenários paradisíacos, as comidas típicas e as fotografias obrigatórias. Com a vantagem que vergonha não pode ser colada no álbum, nem filmada. Fica na memória para ser contado com algum grau de auto-ironia e complacência.
Fonte inesgotável de micos estilo king-kong são as viagens ao exterior. Desconhecendo os costumes e a língua estamos sempre à beira de um conflito internacional. Lembro que éramos um grupo em três carros alugados, indo ao Vale do Loire, na França, quando paramos em um pedágio todo diferente, com uma cesta, que ninguém sabia como pagar. A fila atrás de nós foi um vexame quilométrico, só resolvido quando um enfurecido francês desceu do seu veículo e nos ajudou, mais por impaciência do que por solidariedade e com aquele olhar que te faz sentir um brucutu.
Também nesta viagem, todos com os melhores trajes, as mulheres de longo, acabamos espremidos dentro de uma cabine telefônica, em frente ao cassino de Monte Carlo, para passar a chuva. Isto por termos entrado no prédio de estacionamento pelo guichê de saída e ficarmos meia hora aos gritos pelo interfone, com o computador, até que - embora eu desejasse que fosse a Caroline de Mônaco-, apareceu um guarda e numa língua que nem posso chamar de civilizada resolvemos o problema após ameaça de prisão. Até porque viajava conosco uma velha senhora, mãe de dois dos colegas e que, desbocada feito uma rameira, xingava o guarda de todos os palavrões que a última flor do lácio já criou.
Tenho um conhecido que ao hospedar um americano o ensinou dizer "você é boiola" como se fosse How are you, e o miserável saiu a cumprimentar a todos, inclusive o pai do colega, e uma amiga que, ao olhar um cardápio floreado, indecifrável, pediu para comer o dono do restaurante.
Há os desastres alimentares porque, economizando, ou exagerando, há horas em que a fome fica maior que a dignidade e se come qualquer coisa. E situações desconfortáveis, como um parceiro de viagem que fez redução do estomago e teve uma ressaca intestinal após comer um cordeiro patagônico com javali, prato que imagino ter sido o preferido dos tiranossaurus. O mesmo parava a Van do grupo- aterrorizado- durante passeio em Mendoza, a cada ação das suas enzimas digestivas.
Mas, impagável, somos nós tentando falar espanhol. Costumo ficar calado ou falar meu arcaico português da forma mais lenta, se possível que dê tempo até dos hermanos abrirem o dicionário para me traduzir. Mas o brasileiro aprende "saca la foto", vira poliglota e a partir daí fala uma língua de fronteira, indecisa, embaralhando terminações vocais, num mimetismo polifônico indecifrável. Ou falam português bem alto, mas com o sotaque local, obrigando-os a ouvir quero "dôs", como se dois fosse incompreensível.
Recentemente, na Argentina, estava na portaria do hotel, quando um cliente começou uma discussão. Alto, suando, gesticulando como Maria Bethânia cantando Carcará, o brasileiro vociferava contra algo no dialeto de Tarzan.
- Você não intiendê? Não falar mí língua?
O porteiro, símile de Rocky Balboa, balançou a cabeça e foi cuidar da vida. A mulher, que aguardava com os filhos, sugeriu que ele telefonasse para o guia da agência. Foi aí que o marido atravessou o lotado saguão, aos berros, gesticulado com o dedo mínimo e o polegar abertos e os outros dobrados, em direção ao apavorado funcionário.
- Eu quero um orelhone, eu quero um orelhone...
Se não foi deportado deve estar lá até hoje esperando o porteiro entender.
Ném é este teu jeito de se parir do casulo, de baile imaginário do inesperado, nem as vastidões que tua alma , teu corpo, tua boca, ou tua amizade, oferecem, nem é o que migra do acaso, feito oferta, delicadeza de flor que, contrária, avessa, nasce do árido, do sofrido, do desconfiado, da boca molhada de consfissões, da repartição de pequenos desencantos e únicos sorrisos retirados um a um do báu de madre-peróla da memória, de dama e mulher, feito hóstia, feito sagrado e profano. Hoje, tu é tu mesmo, a cúmplice desta sutileza de existir, comigo, entre as palavras...
As mulheres que já não estão na faixa etária do, digamos, sub-30, compõem o que a demógrafa Elza Berquió, do IBGE, chamou em seu livro, de Pirâmide da Solidão. São mulheres autônomas, profissionais liberais, com independência financeira e competência sexual, separadas ou solteiras, que não encontram sua metade da laranja, nem um homem pra chamar de seu.
É certo que o início cada vez mais precoce da vida sexual feminina, além do impacto no aquecimento global, ampliou a oferta no mercado da sedução e do acasalamento, facilitando aos homens resolverem com duas de vinte, e módico investimento, as necessidades dos quarenta, mas não é só isto que está deixando estas mulheres sem parceiros para reconstruir uma família.
Decerto, também, que não é só culpa do papa de convicções neanderthais que disse ser o segundo casamento uma praga social, mas a verdade é que passado a fase do canibalismo e desforra -ou atualização muscular como dizem algumas-, sexual que as mulheres costumam vivenciar na pós- separação fica quase impossível encontrar um homem que esteja disposto a construir uma relação permanente mesmo com casa, comida e roupa lavada. Aliás, a famosa atriz Zsa Zsa Gabor costumava dizer que não perguntassem a ela nada sobre sexo pois sempre fora casada.
Estas mulheres sozinhas que rolam pelos sites de encontros, vernissagens, lançamentos da moda, se não esperam mais o príncipe no cavalo branco, não perderam a ambição suprema de suas almas, que é o amor. Elas se cuidam, malham como atletas, tratam-se como modelos, usam os melhores cremes e, vá lá que seja, usam um botox aqui e ali. Vestem-se com elegância e são capazes de conversar sobre o declínio da civilização ocidental com a mesma facilidade que trocam uma dieta infalível, ou uma receita diet.
Livres e experientes são capazes de prometer e cumprir com esmero os desejos masculinos, mas exigem em troca companheirismo, bom gosto, indispensavelmente uma conversa inteligente, se possível alguma habilidade culinária, sensibilidade e - que elas nunca deixarão de gostar- firmeza de intenções. Enfim, um parceiro master-plus.
A diversidade de informação, ganhos e liberdade tem elevado o padrão de satisfação das mulheres, fazendo com que os homens, mais lentos nas adaptações, como dinossauros urbanos, tenham dificuldades em conquistá-las. Como não há bula, nem re-treinamento, os homens continuam abordando erroneamente as mulheres com padrão de exigência mais elevado.
Recentemente, almoçava com um grupo e uma amiga, médica, viajada, bem sucedida, mantinha agradável conversa sobre cinema e literatura, dois interesses que temos em comum. Até que o papo tomou o rumo dos relacionamentos e a queixa geral foi a dificuldade, a escassez de homem no mercado, corroído pela banalidade e pela crescente onda gay. E, entre um suspiro de desilusão e riso, me contou sua última experiência.
Estava com amigas em um aniversário, elegantíssima, vestido longo, a base da taça de vinho presa entre os dedos, como convém, quando foi apresentada a um homem que lhe pareceu atraente, tendo iniciado aquele rito de investigação desinteressada e casual que faz toda mulher antes de aceitar a cantada. A coisa já tinha meio caminho andado, embora ainda não o suficiente para dilacerar o vestido, quando ele atirou no próprio pé.
- escuta, adorei te conhecer, porque não saímos amanhã pra comer um caranguejo na Cabana da Cely?
-Agora imagine meu amigo, eu, depois deste investimento todo que fiz em mim, no sol de meio dia, com um porrete na mão- tac, tac, tac-, quebrando patinha de caranguejo, toda lambuzada? Nada contra os braquiúros mas no primeiro encontro? Que futuro isto pode ter? Com um mês eu vou tá onde? Encarando a maré vermelha e me acabando em cima da mesa no pagode em Cabuçu?
Nunca mais reclamei por ser alérgico a caranguejo. Deus, agora creio, realmente escreve certo por linhas tortas...