Escolhera o percorrer mais difícil. Andaria pelas escarpas. Margearia antigos abismos e silêncios. Já provara da angústia das incertezas. Guardaria metafóras no alforge. E as plantaria sob teus pés. Elas nasceriam de seus casulos como acuçenas e orquideas, para enfeitar os tempos de tua permanência. Recolheria antigas histórias do embornal e contaria ao teu ouvido como leite e mel, para tecer meu ficar no teu pensamento. Faria filhos em ti, para que também pudesse crescer dentro de teu corpo e dormiria com a lua na tua janela, apenas para que teus feitiços de sarcedotisa se refizessem todas as manhãs e nunca mais pudesse te abandonar e o vazio nunca mais tangesse as velas de nosso coração. Percorreria o mais difícil. Além das escarpas e da imaturidade. Além das armadilhas. E desfaria as pegadas. Pra que nunca mais houvesse um caminho de volta...
A carcaça das horas
Não me neguei. Não fugi dos demônios no caminho. Não negaceei com o destino, nem fiz meia volta diante do escuro. Um lado de mim se atirou sem reservas no desassossego. A outra, foi meu fio de Ariadne, meu cordão no labirinto. O limite da sobrevivência. Não meço o preço pelo custar, mas pelo pelo sentir. Pelo alcançe. Tenho dores de tudo, pelo faltar. Sim, sei que os deuses, como castigo, atendem meus pedidos. È insano e sacro. Pois vim de lá. Da roça, onde a terra entranhava nos dedos. Sou da terra. De lírios e bromélias no jardim. E galos nos quintais. Montava à pêlo. Não esperei o cavalo selado da sorte. Por isto trago cicatrizes. Não de navalha ou facas no cais mas dos mais raros amores de perdição. Por isto espanto borboletas azuis e tenho arco-íris nos olhos. Leio o escrito nas entrelinhas. Me decifro no não dizer, nas entrelinhas. Por isto tenho dias de casulo. Li. De tudo. Pra te contar a história do mundo. Bebo vinho. Dormi em castelo francês, numa cidade medieval e na esteira, ao sereno, lá no meu sertão. Já fiz cercas, protegendo os pastos. E rasguei a mão esticando os arames. Fiz aceiros, pra queimar coivaras. São assim, os dias de quem lida na fazenda. Tenho cercas que fizeram ao meu redor, mas não aceiros, que me protejam dos incêndios. Não mais cometo heresias em teu santo nome, amor. Sei que, para ser salvo, terei que vencer o Minotauro. Só, ainda não sei, quem ele exige no altar dos sacrifícos. Mas conheço as lendas. E sei que já não se ofereçem, virgens, pela escassez, nem as mulheres, de silicone, acham direito se oferecerem a longos destinos. È tempo de penúria, nos amores, sem ela. Bebo e espero. Mas o tempo, eu sei, se alimenta da carcaça das horas...
Arrependido, mas voltei. Mendoza e a festa da Cosecha, a Vindima, é uma festa inesquecível. E uma concentração de mulher bonita de desorientar destinos. Enquanto ficamos aqui, fazendo piada com os argentinos e nosso Molusco diz na entrevista com o presidente dos EUA, com o mundo todo assistindo, que as negociações estão perto do ponto G, a Argentina se trnasforma. A economia cresce a ritmo de 8% ao ano, a taxa de desemprego baixou em 3 anos de 27% pra 8,7%, o limite de isenção do imposto de renda fica em 1950 para solteiros e 2400 para casados, a pilula do dia seguinte é distribuida gratuitamente em todos os postos de saúde, os bares te dão um jornal pra ler, assim que voce senta, e bebidas são entregues as seis da manhã, por um caminhão, na porta de todos os bares. Não há ninguém pra receber, ninguém pra assinar uma nota que foi entregue. E ninguém leva...
Bem, depois de muito vinho, vinho, vinho, estamos de volta