Não vou bancar o pessimista e achar que perdemos o bonde da história, embora, em verdade, o bonde, há mais de 500 anos que não passe por aqui, só porque o governo apresenta alguns problemas localizados na perseguição a imprensa, na distribuição de verbas para ONG partidárias e no aparelhamento do estado. Não vamos generalizar por contas de mensalões, dossiês e, claro, do apoio ao filho do presidente, que tem se revelado um raro talento no mundo dos negócios, alavacando sua empresa de games à parceria com uma multinacional, mostrando que qualquer continuo deste Brasil varonil, empreendedor e filial, pode realizar seu sonho.
Mesmo que o estado invada o sigilo bancário dos indefesos, e seja acusado de ter uma quadrilha que age nas barbas, nunca colocadas de molho, do presidente, não podemos nos abater por situações minoritárias que retardam nossa inclusão no futuro, portanto não vamos ficar chorando pelo leite derramado, como nos aconselhou sua excelência. Apesar dos aloprados, e do presidente não saber de nada, estamos aqui para valorizar um trabalho importante, de profundo impacto social, que nos permitiu identificar o verdadeiro genoma da satisfação populacional deste gigante cada vez mais deitado tanto no berço esplendido quanto na rede de licuri. A verdade tão nua quanto crua, a cereja do bolo desta administração, é o programa de inclusão sexual. Sim, não se espante, porque você ainda não ouviu falar, mas é que o governo está trabalhando com ¿direcionismo publicitário¿ e logo você será colocado a par de tudo de tudo por uma cartilha oficial.
Segundo estatísticas de diversas pesquisas de alcova, quase metade das mulheres brasileiras não atinge o orgasmo durante a relação sexual, algumas nem em liquidação de shopping e outras não atingem sequer a relação sexual. As mais jovens porque conhecem o lazer mas não o prazer e as demais porque não tem cidadão que se alevante com a falta de dinheiro pesando sobre os, bem, digamos, ombros. Mas, graças a sabedoria de nossos mandatários, tudo isto está melhorando. As mulheres estão ganhando um adicional por filho que nasce e isto tem provocado uma revolução silenciosa, bem , não tão silenciosa, já que podemos dizer que o governo está fazendo a nação gemer sem sentir dor.
Mas a verdade é que o orgasmo sempre foi um privilegio desta elite secular e devassa que faz nos leitos o que costuma fazer nos financiamentos do BNDES e nos fundos de pensões, sendo que apenas as mais diferenciadas chegam, descontroladas, aos orgasmos múltiplos com seu gato, tanto quanto aos juros mais baixos. Enquanto isto, a mulher pobre, sobrevivia carente de carinho e sexo, coisa quase tão boa quanto pirão de leite com carne do sol, mantendo suas roupas, sem encanto, nos giraus, não recebendo qualquer atenção do marido e, nas quinzenas ocasionais, com o bicho sem desenvolvimento sustentável, e limitado. Muito embora, como diz amigo meu, acusado de ter o dito cujo pequeno, ou prejudicado horizontalmente, como é politicamente correto dizer, ele pode até ser ¿piccolo¿ mas é importante que seja repetitivo.
O dado concreto é que, com este adicional por filho, finalmente o sexo reprodutivo e o orgasmo - sua variante colateral-, está chegando aos grotões e guetos, produzindo uma onda de bem estar e satisfação, nunca vista. Pense vocês que o nordestino, antes de tudo um forte, que chegava da labuta, exausto, depois de arrancar a mutamba e o velame, o alecrim, no seu pelejar com uma roça de ¿meia¿, agora chega em casa renovado e, ao encontrar sua flor de laranjeira, banhada no açude, cai numa aleivosia noturna de fazer ¿mandacaru fulorar na seca¿ , produzindo toda uma nova geração de eleitores que, num avanço, num salto para a contemporaneidade, pioneiramente, não receberão mais nome, sendo todos registrados com seu número de inscrição social, o que evitará a morte de tantos severinos.
Como todos sabemos a nossa taxa de natalidade está acima dos 2% o que faria apenas a reposição populacional e, enquanto na elite a taxa média por casal é de 1,8 filhos, na periferia de São Paulo chega a 5,2. Com um planejamento familiar tímido e receoso da pressão da igreja católica e com este programa de inclusão sexual, o governo haverá de, enfim, exibir o espetáculo do crescimento, com nossos bacorinhos eleitorais predestinados a eterna condição de esmoler social.
Vocês podem não acreditar que a imprensa anda mais suspeita que casa de tolerância, mas já tive meu dia de elefante em loja de louça. Não cheguei a enfiar o pé na jaca, como está virando moda falar, nesta submissão comportamental que a televisão nos impõe, largados que estamos nas mãos do Deus imagem. Mas aprendi que só nos resta tomar três catuabas, fechar o corpo no templo de alguma religião de matriz africana - como recomenda a frescurite e o manual de redação - e jurar que o que vier você topa, sem fugir da raia, aliás, nem da própria.
Acontece que, por arte do destino, estava só, em Feira, na semana que minha filha ia fazer uma apresentação de balé, no festival de sua escola de dança. O leitor poderá dizer que não vê perigo nisso, mas certamente não conhece Ana Luisa. Garanto que, com meia hora de conversa ou exigência, dependendo da necessidade, ela já teria resolvido esta baderna do apagão aéreo. Até porque, perfeccionista que é, se algo da errado, nós temos lágrima de fazer o sertão virar mar e eu nunca soube que macho que é macho - tô falando de macho e não desse negócio genérico e similar, sem marca, que anda sobrando por aí nas "nights" - agüente ver mulher chorando, seja de que tamanho for. Aliás, recentemente, depois de três dias acampadas, em ajuntamento mais ativo que assembléia da ONU, ela e as amigas prepararam um trabalho para o colégio. Na hora da aula, com filmagem do Centro de Abastecimento e monumentos históricos, a coordenadora tirou a professora da sala para uma reunião e a deixou ali apresentando, sozinha, para a turma, que, claro, não prestou nenhuma atenção. Olha, dou um conselho à senhora coordenadora: pense duas vezes antes de tomar atitude tão antipedagógica, pois a senhora nem calcula o que é a ira e a desilusão adolescentes.
Mas, voltemos ao balé. Nestes eventos, Ana Luisa prepara tudo milimetricamente, parecendo noiva em porta de igreja, com noivo atrasado. É horário no salão para o tal penteado, maquiagem, e a fantasia, que fui buscar depois de duzentas e vinte e sete recomendações. Tudo ia bem até que, no almoço, ouço um grito de perdido na selva e me preparo pra matar mais um leão, que sei que vida de pai é isso mesmo.
- Meu pai, está faltando uma meia-calça. Você tem que ir comprar.
- Não serve um short, filha? É metade também.
- Não seja mais ignorante do que você já é, meu pai. Oh Deus. É uma meia-calça de balé, meu pai. E rosa. Ai de você, se esquecer.
Deixei-a no inglês e, antes de saber onde vendia tal peça, já tinha mensagem no celular, que eu fosse logo, para não correr o risco de não achar. Como quem tem, tem medo, fui procurar a dita cuja.
Pois, três da tarde, sol de rachar disposição, bato perna até a loja Meia Noite, na Getúlio Vargas. Caso alguém não saiba, é uma butique de moda íntima, versada em calcinhas e outros apetrechos da indumentária feminina.
Acho que nem todos sabem o que é homem entrar em loja de calcinha. Não é fácil, exceto se for para comprar presente para uma aventura, em que a cara de cumplicidade com a vendedora confere certo grau de impunidade. Três mulheres compravam, uma delas esticando uma calcinha preta, certamente imaginando com que mágica ela caberia em espaço tão diminuto. De outra, com uma pilha, no balcão, ainda pude ouvir a metade da frase:
- Sei lá, queria uma novidade, já experimentei de...
Quando entrei, por um instante, todas se recolheram, recatadas, as vozes baixaram, e fui olhado, por um segundo, com curiosidade e desconfiança. A loja é pequena e, quando a vendedora, veio me atender, acho que tentando me despachar o mais rápido possível, elas voltaram a suas escolhas.
- Boa tarde. Eu queria uma meia-calça. Senti que a voz não decolou.
- Como senhor?
-Eu queria uma meia-calça rosa. Pra balé. Você tem?
Senti a nuca gelar, o suor e o riso irônico da morena experimentada. "O ar condicionado precisa ser revisto urgentemente" - eu disse.
- Ele tá ligado. De que tamanho o senhor vai querer?
- Médio.
- Tem certeza? Perguntou a vendedora, me olhando geral, não sei se desconfiada da fartura de minhas coxas ou da abundância da barriga.
Não agüentei o desaforo e, ofendido, respondi:
-Porqueeeê? Você acha que eu não vou ficar bem na média, não é?
A loja veio abaixo e eu também. Depois expliquei que era para minha filha de doze anos. Ela embrulhou e eu saí, embora sem muita certeza se aquelas mulheres acreditaram.
À noite, levei Lu para o espetáculo. Estava linda, como só nossas filhas são lindas, com a tal meia. Não sei se outro pai passou sufoco igual ao meu, mas por via das dúvidas, decidi emagrecer. Nunca se sabe quando ela pode precisar de outra, e vendedora nenhuma vai me pegar mais, sem caber, com uma "meia-calça, média" nas mãos.
Há qualquer coisa de astronomia, de quiromancia e adivinhação em olhar quem se deseja. Mapear os sinais do ar, os olhos confessos de homem, os arabescos de braços e pernas, os cabelos em alvoroço, o resplandecer de uma mulher que se sabe cobiçada, a decifração de uma palavra que salta, de repente, além do contexto original do dez mandamentos e que é aceita, pelo outro.
E há o risco de vencer o proibido, o sagrado espaço em que habitava, antes, a longa amizade, as danças -coreografias de acasalamento que ainda não se sabiam-, risos de pequenos eventos em comum, ao acaso, que se encandeiam, feito um canto gregoriano, queima de fogos de artifício a preparar a armadilha do súbito encantamento, o feitiço, que muda a porosidade do corpo, tornando-os permeáveis. Brincar de ciúmes, com a malícia de inocentes, e antecipar as bocas como um adorno de velas, um narrar de segredos inesquecíveis e o beijo, escritura de concessão, sismo, que não poderá ser dado a mais ninguém assim, como um rito de aplacar todas os anseios.
É preciso saber o exato instante em que se lança as naus da fome, a conquistar o vasto, o mar alheio, sob o perigo de perder-se para sempre, a passagem entre a distância e o enlaçar-se perdidamente, numa música, os braços rodeando o pescoço, feito rodilha, um ardil de noticiar o que poderá vir, mais tarde, quando a lua fechar os teatros e os restaurantes e o vinho percorrer, feito frêmito, as últimas recusas.
Ah, aquele instante único em que sabem, com todas as certezas, que se darão, enfim, exaustos de se protelarem. À noite, cúmplice, ele sentirá os limites dos corpos se provocando, enquanto ela, feito as margens do Nilo, se fertiliza, em anseios de o ter, de não ser mais um segredo para ele. E, depois, desvendados, refazer o milagre nos dias seguintes, mais profundos e inteiros, livres dos pudores, grávidos de confissões e esperanças, entregues a própria sina, na insaciedade de querer mais. Nas lágrimas dela, que lavam o rosto, das culpas, feito água benta, de quem se martiriza como uma dádiva de amor, para o outro.
Foi assim, como quem tateia meridianos desconhecidos, que ele a viu, possível, a mais inacessível das cobiças, as defesas fragilizadas, e ela, deixou que migrasse por sua pele e princípios a vontade, até então, não permitida, como uma alegoria de sedução. E, desde então, a imagem de um, oscilou, feito sereno e senha, sobre o sono do outro: a pele dela molhada ao sol, a libido dele feito provocação, Arca de Noé , a recolher todos os desejos.
Foi em cartas de fogo, lidas por ela, em avidez de descobertas e cio, como quem trapaceia com o destino e, rendida, desfaz os aceiros das dúvidas e se deita nas promessas que o telefone anuncia. Ele lhe contou que Zeus, querendo medir com exatidão o centro do mundo, fez com que duas águias fossem soltas de lugares opostos da terra. Quando o vôo das duas se cruzou, ali, bem embaixo, o todo-poderoso determinou ser o local ¿ uma pedra situada nas cercanias do monte Parnaso - do ônfalos, o umbigo do mundo.
E, quando, enfim, se encontraram, ao dançarem, poro com poro, ele disse que só dela, como Zeus, na lenda, poderia se contar para o mundo, perdido para sempre no labirinto de espirais, que se anunciava, feito porto, paixão dos loucos, ponto cardeal, irrepetível, onde, enfim, encontraria sua direção.
- E onde fica o rumo que, teu hoje, te faria sempre voltar, perguntou, sem domínios, o vestido se dilacerando.
E, ele, implacável..
-Ao sul do teu umbigo...
Semana passada, escrevi sobre a violência do viver, não a da porrada em festa, mas a de competir, sem descanso, no trabalho, sexo, nas relações sociais. Insisto no tema para que não digam, depois, que não sabiam de nada.
É preciso não confundir violência com vigor ou moderação com ausência de paixão. Tostão, o craque, escreveu que a diferença de Ronaldinho para Pelé e Maradona é que o primeiro nunca se altera, mesmo em situação adversa, enquanto os dois, especialmente Pelé, ficavam possessos, endemoniados, chamavam o jogo, iam no zagueiro, fazendo o que Nelson Rodrigues dizia: que jogador, às vezes, por paixão, joga como quem cospe na cara.
Infelizmente, tem surgido grandes idiotices, no esporte. Um juiz, penalizou a Sharapova, porque seus gemidos, na quadra de tênis, ao marcar o ponto, pareciam orgasmos. Ah, meu santo! Este misógino, bunda mole, que vá apitar futebol de botão e deixe a Sharapova gemer. Jogadores estão sendo impedidos de comemorar o gol, como querem, sob o risco de cartão vermelho, como se estádio fosse uma repartição pública, pra carimbar documentos.
Outro dia um jogador deu três dribles no adversário e foi punido ¿ caramba! - por atitude antidesportiva. Por fazer o espetáculo que diferencia o craque do perna-de-pau! E o pior é que já tem torcedor vaiando olé. O que é isso? Nos dias de hoje, Garrincha ia pegar prisão perpétua.
Também não estou defendendo os estudantes de 68, no Quartier Latin, incendiando Paris, nem guerrilhas no Araguaia, que amputaram mães como Zuzu Angel, mas não podemos sobreviver apáticos, como estamos. Algum Dr. Silvana, cientista maluco, botou gás anestésico no botijão de cozinha, diluíram diazepam no leite nosso de cada dia, dissolveram uma tonelada de baseado puro, na água, para nos deixar sem reação. Sermos bananas está deixando de ser uma metáfora para virar modelo de comportamento, tanto quanto a tara por bunda e ser flamenguista. Mas aviso: não podemos achar tudo normal.
Não é tolerável que políticos roubem, mintam, persigam, façam mensalões, dossiês, privatizações indecentes e enfiem impostos nossa goela abaixo, sem darmos nem uma gemidinha de resistência. Nem que a polícia não investigue, que a justiça não condene, que o crime compense e fiquemos impassíveis. Não é razoável que achemos moderno a mãe namorar a nora do cunhado do filho e meninas transarem antes de menstruar, sem que façamos uma rebelião e passemos a vida no fio da espada. Se bem que, como disse um amigo, quando soube que a filha namorava demais: ¿o pior, meu irmão, é que ainda tenho que dar graças aos céus por ela gostar de pinto¿.
E, acima de tudo, meu Cristo, não estão vendo que, ao contrário do que diz a música, Deus tava era querendo namorar quando inventou a fisioterapeuta e atriz Paola Oliveira? Até as calotas polares tão derretendo ( com ela longe) e nós permanecemos imóveis, indolentes, mais frios que bunda de foca.
Nós necessitamos de paixão. Por alguém, por uma causa, de geniais craques possessos, que soquem o ar, que se benzam na pequena área e a invadam como se fossem viver o último ato da vida, como carrascos, e não fazendo gol como quem pede desculpas. Queremos quem tenha a coragem de assumir uma atitude, quem chore e ronde a cidade por um amor perdido. Que fique na fossa por uma mulher que foi embora com outro, pois tá faltando compostura até aos traídos.
Carecemos de alguém que rode a baiana e - vá lá que seja, tudo pela salvação da espécie - que cuspa na cara, ainda que metaforicamente.
Necessitamos de um político que tenha opinião e que saibamos em que cartilha ele reza, ou pela qual é ateu, sem conversões no meio da cena. Que seja capaz de dar a palavra e cumprir, seja ela qual for. Que seja ele mesmo e não o que o marqueteiro diz que ele é, que não mude de acordo com a maré eleitoral, como um travesti de opiniões.
Nós precisamos, como se queixam as mulheres que ouço, de homens que tenham ¿pegada¿, que saibam, ainda, que somos sim, sexos diferentes e complementares. Homem, zorra, não precisa amamentar pra ser pai.
Chega desta mesmice, deste politicamente correto, que excluiria um deus de pernas tortas dos gramados da vida. Não podemos continuar tão amorfos, só no bundalêlê, que não somos, nem a vida é assim. Até prova em contrário, o que nos corre na veia ainda é sangue, o que nos dói na cara é vergonha, o que nos queima na alma é paixão, o que somos, ainda se chama ¿humano¿.
No jargão militar, em moda, atualmente, depois da escalada beligerante entre o Ocidente e o Oriente, ou entre o fanatismo religioso e explicito do islamismo e o enrustido dos americanos, é comum o uso do termo "teatro da guerra" ou "teatro de operações". A expressão refere-se ao espaço onde estão em ação os homens que executam outros homens respaldados em leis criadas por terceiros, afinal, Freud, dizia, em Futuro de Uma Ilusão, que o homem se libertou do canibalismo, mas o assassinato permanece, às vezes, com o apoio legal do estado.
Talvez esteja certo Konrad Lorentz, prêmio Nobel, em On Aggression, ao defender a tese que ¿a espécie humana traz em si forte herança de territorialidade e agressividade¿, que devem ser botados pra fora, ¿se quisermos nos poupar de distúrbios sociais¿, mais ou menos como se fossemos nascidos para matar e, de quebra, pilhar, torturar e cometer umas barbáries sexuais, afinal ninguém é de ferro.
Dito assim, a guerra parece algo irreal e remoto, mas quisera eu, ainda crer, que ela seja algo que acontece num plano tão distante quanto as montanhas afegãs, ou tão próxima quanto as ruas de minha aldeia, mas externamente. Acontece que, tanto mais observo as pessoas e meu próprio fazer, convenco-me mais que somos nós, o verdadeiro teatro de operações. Não guerreamos de fora para dentro, mas ao inverso.
Ando cismado, que nem cachorro em porta de venda, de que a paz, como a definimos- ausência de guerra - existe, mas apenas porque limitamos conceitualmente a guerra a um bando de aloprados atirando em outro bando de aloprados, mas se pensarmos em paz, como a total ausência de beligerância, esta não é factível, nem para o maluco beleza, que não deixa de estar em guerra contra qualquer coisa, desde que contra.
A paz , nesta dimensão, creio com fé de eleitor brasileiro, não é uma utopia possível, porque, se observarmos de forma cuidadosa, somos um corpo em permanente antagonismo, entre sistemas que se equilibram ao longo do tempo, em canibalismo tolerado, batalha a batalha, minuto a minuto. Somos antípodas, somos estabilização às custas de uma imensa operação de lutas, numa logística invejável de acomodações e concessões. Morrer, afinal, nada mais é, do que perder a mãe de todas as batalhas, o Waterloo fisiológico.
Mas, se dentro, ela é imperceptível, externamente ela se despe sem pudor, como se a vida não passasse de uma revista de exibicionismo físico. Se formos ao coração das trevas, veremos a permanente guerra pra existir, vaselinada com o nome de competição profissional, sexual, acadêmica, visual, ocorrendo o tempo inteiro.
As relações sociais aparentemente amigáveis, olhadas no seu cerne, não passam de uma simulação, um jogo de efeitos, basta ver o que se fala dos vizinhos. Mesmo a relação amorosa, estado no qual supostamente entramos no nivarna, não passa de outra peleja, por meios diversos e com a vantagem da confraternização física com o inimigo, mas ainda assim, um jogo para dominar ou para que o outro não queira deixar nunca de dominar você. Isto nos leva as ações mais desesperadas, calculadas, meticulosamente preparadas, nos salões de beleza, na intriga para afastar concorrentes, o que é, em analise final, apenas uma disputa por territórios, onde só não fazemos xixi no parceiro, para marcar espaço, como os cachorros, porque seriamos mal compreendidos.
Com a mesma letalidade, e quantas vidas não são destruídas por amor, ou a pela falta dele, usamos arsenal diverso: jóias, noites banhadas em vinho, danças imemoráveis, jantares românticos e promessas ao luar, calcinhas pretas, performances sexuais turbinadas, decotes abissais, carros potentes, numa sucessão de armadilhas, capaz de vencer o mais resistente dos competidores.
E há, ainda, outro duelo, não com outros, mas dentro, no espelho, com a luta constate de limitar nossos instintos bárbaros, latentes, com civilização e cultura, que nos garanta a convivência, às vezes insuportável, com o pior e melhor de nós mesmos. Assim, creio que temos apenas a ilusão da paz, a idéia falsa de que a manutenção dos sinais vitais é um atestado dela, mas a verdade, é que a paz, um estado de fluir, de ceder aos ventos, de forma inteira é uma ilusão. Não há descanso, há apenas alegorias, que nos trazem a ficção da trégua. Até a vida, nos fazer de novo, remar contra a maré.
você me deixa um pouco tonta
assim meio maluca
quando me conta essas tolices e segredos
e me beija na testa, e me morde na boca
e me lambe na nuca
você me deixa surda e cega
você me desgoverna
quando me pega assim
nos flancos e nas pernas
como fosse o meu dono
ou então meu amigo
ou senão meu escravo
e eu sinto o corpo mole
e eu quase que faleço
quando você me bole e bole
e mexe e mexe
e me bate na cara
e me dobra os joelhos
e me vira a cabeça
mas eu não sei se quero ou se não quero
esse insensato amor
que eu desconheço
e que nem sei se é falso ou se é sincero
que me despe e me vira pelo avesso
não eu não sei se gosto ou se não gosto
de sentir o que eu sinto
e que me atormenta
e eu confesso que tremo desse sentimento
que de repente chega
e que me ataca
e assim me faz perder-me
e nem saber se esses carinhos
são suaves ou velozes
se o que escuto é o silêncio
ou se ouço vozes