Um lugar de palavras no meio do nada

Terça-feira, Setembro 19, 2006


[12:12 PM]

A mulher de flores....

Eu sei que amarei tua boca, cega e errante, alimentado-se do meu sal e teus lábios feito as margem de minha única rota de navegação, sei que me perderei no teu corpo de exatidões e ofertas, e descreverei eternas elipses ao teu redor, feito planeta que margeia o teu sorriso, para se manter. Sei que penetrarei teu corpo como quem inventa outra medida do desejo e realização e sei que, ao final, eu te olherei e tu me olhará e saberemos que nunca aconteceremos em vão. E, então, teremos varrido todos os campos e cevado todas as redenções, as óstias consagradas aos encontros de amores. Botaremos a mão no fogo, sairemos pela rua e ofenderemos aos virtuosos e secos por ousarmos amar o impossível. Sei que conjugaremos as ausências como versos de esperança e o tempo se medirá em léguas de querer. . Sei que carrego em mim teus segredos e posso tocar teu inacessivel. Bruto e puro. E por findar, destino de quem começa, um dia tu acreditará que fui apenas um sonho bom que habitei, feito feitiço, teu ventre de fêmea. E então, talvez, você ainda me cheire em uma página de livro, ou quando a chuva molhar a terra e ela me exale e o vento me atiçe em teu rosto entre os vincos da memória.
Eu sei tudo que a vida me ensinou, a história do mundo, os livros que li, as orações que conjuguei, o que minha mão construiu sobre a terra e as perdas e danos de viver sem ser brando. Eu sei de tua doma, desconhecida; eu sei de meu alcançe, lobo insepulto, mas hoje, que todas as lendas se rezam, eu queria apenas, que nada disto fosse importante ou necessário, e que ela, descalça, fosse apenas uma companhia que soubesse plantar flores...

Foto: João Parassu




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Quinta-feira, Setembro 14, 2006


[8:40 AM]

En...laço..

Talvez seja este mundo urgente e numérico em que as relações não tem conteúdo. Não estou falando que sejam finitas, que mesmo o finito, nem sempre, finda o bonito, ou desfaz a teia do inesquecivel. Nem estou falando do sexo, que nem porque foi de noite única, ou de mil e uma noites, se torna necessáriamente mais ou menos significativo. O que nos falta é contéudo. È tornar cada toque no outro, seja daquela noite, seja daquela vida, um acorde de violino executado nos fios da pele e da alma de sua amada. È o sentido, mais do que a duração. O que não é para sempre nos dói, mas o que não tem sentido, o que é vazio, nos mata. Dilui as esperanças, estreita as ilusões...
Ah homens, vóis não sabeis que a mulher é, essencialmente, o reconhecimento, a loucura dos movimentos da palavra, feito dança, na sua memória, nas suas senhas de dominio e posse? Não sabe que ela se rende apenas para poder lutar por si própria e pela razão de ser, e luta, apenas para fazer com que tua volta seja sempre o grande enredo? Não vamos deixar nos perder e vê-las apenas com os olhos de frestas, de desesperos isolados, do temporário. Sim, porque elas também os tem. Mas, uma mulher é essencialmente o nosso único e merecedouro destino de homem. E é apenas nela, no seu ar de feiticeira, na delicia do leite de esmeralda em seus olhos, num jeito qualquer de nos olhar além do fisico e decifrar o que sequer sabemos que somos, de render-se feito uma nação que assina um armsitício por uma palavra que ficou feito bolha de sabão no ar, por uma lua na varanda, por uma promessa de vinho feito rio revolto escorrendo da boca do seio, feito um escuro qualquer de nunca ver, que se faz a primeira vez, a luz de uma vela ou candeeiro, ou a reliquia de um bilhete seu que guardamos feito esperança na Caixa de Pandora. È apenas nelas, no ventre dos braços dela, que nos parimos. E não importa que não possa mandar flores amanhã( de todo modo bastante recomendável), nem que telefone no dia seguinte ( de todo modo muito necessário) , o que importa , é que hoje, ainda que seja apenas hoje, não a faça sentir-se apenas a sua presa. Ao contrário. Como digo, eu a você:sinta-se laço...




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Quinta-feira, Setembro 07, 2006


[11:51 AM]

Mirante

Tenho uma vida inteira de esperas, nos dedos, e vontades ancestrais nas palavras. Aprendi a dançar conforme a música, só para facilitar tuas voltas em meus braços. Prometo te beijar como quem se salva e te tomar como quem constrói passadiços para o futuro. Contarei histórias na tua cabeçeira, enquanto o sono for apenas nuvem em teus olhos.
Sei de tuas margens de flores, dos feitiços que conjura quando se enfeita de poesia. Por isso me deitarei em teu corpo como quem conquista um país e deixarei que tu em minha boca seja cálice de especiaria. Deixarei que meus lábios se fartem apenas, da àgua dos teus. Espalharei canela sobre tua pele e farei nos teus cabelos molhados as redes de meu domínio. Eu te concederei selvas, os ritos, os demônios de homem que tu liberta, em ausências. E teu querer moverá o universo, a delicadeza de tua pele se desenhando sob a luz, em cada milimetro de tua nudez , feito um campo de trigo se redendo ao vento de minhas mãos. Eu, tua colheita. Tu , minha semente. E, em tudo, esta urgência de não se negar....




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Terça-feira, Setembro 05, 2006


[10:57 AM]






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Sexta-feira, Setembro 01, 2006


[10:09 AM]

Bateia


Todos os dias
Lavar as palavras da memória
debulhar o grão, da casca
separar as porções, na língua.

Todos os dias
debulhar a memória, da casca
e lavar o grão de toda nódoa,
a mágoa que suja a palavra.

Todos os dias, sem descanso,
bater na pedra de lavadeira,
o rancor oculto dos segredos.
E viver, da minima, palavra
limpa.

Todos os dias...


Foto de Diogo Laranjeira




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