Ele estava lá. Não era preciso, mas estava. Ou, talvez, sua precisão, exata, fosse esta: não o ser. Delimitava sua boca em meridianos, feito um destes cortes imprevistos na arquitetura perfeita de seus lábios. Havia uma necessidade qualquer de imperfeição, nela. Era preciso que namorasse um homem feio. Ou que murmurassem na rua, que podia ser seu pai. E a fizesse sentir-se profana. Que detestasse brócolis e comida japonesa. E que não acordasse antes das dez da manhã, sob nenhuma hipótese. Porque olhá-la era meio como rever um milagre. A exata medida, feita a formão, do seu rosto, feito um gozo de feitiço a semear esta mulher no mundo. A pele feito gérmen de trigo, feito um seio que se eriça a primeira vez, sob os dedos de um homem, um bote de fêmea que captura os desavisados. Porque havia a perfeição de tua face e, sobretudo, havia as esmeraldas de teus olhos, boiando feito caravela no mar de leite que as rodeia. Porque há um avesso, no teu olhar, um anzol de doma, uma isca de sol, a nos cegar de ilusões e desejos. Porque havia qualquer coisa de absurdo na beleza dela, que exigia algo imperfeito. Um piercing, na boca, que a tornasse humana...
Não me neguei. Não fugi dos demônios no caminho. Não negaceei com o destino, nem fiz meia volta diante do escuro. Um lado de mim se atirou sem reservas no desassossego. A outra, foi meu fio de Ariadne, meu cordão no labirinto. O limite da sobrevivência. A vida, diz o poeta, só se dá pra quem se deu. Não meço o preço pelo custar, mas pelo pelo sentir. Pelo alcançe. Tenho dores de tudo, pelo faltar. Sim, sei que os deuses, como castigo, atendem meus pedidos. È insano e sacro. Sorvete de cajá no sol da praia e frio sem cobertor. Pois eu vim de lá. Da roça, onde a terra entranhava nos dedos. Sou da terra. De lírios e bromélias no jardim. E galos nos quintais. Montava à pêlo. Não esperei o cavalo selado da sorte. Por isto trago cicatrizes. Não de navalha ou facas no cais. De amores de perdição. Dos mais raros amores de perdição. Por isto trago borboletas azuis e arco-íris nos olhos. De amores de perdição. Dos mais raros amores de perdição. Leio o escrito nas entrelinhas. Me decifro no não dizer, nas entrelinhas. Por isto tenho dias de casulo. Li. De tudo. Pra te contar a história do mundo. Bebo vinho. Dormi em castelo francês, numa cidade medieval e na esteira, ao sereno, lá no meu sertão. Já fiz cercas, protegendo os pastos. E rasguei a mão esticando os arames. Fiz aceiros, pra queimar coivaras. São assim, os dias de quem trabalha na fazenda. Tenho cercas que fizeram ao meu redor, mas não aceiros, que me protejam dos incêndios. Não mais cometo heresias em teu santo nome, amor. Sei que, para ser salvo, terei que vencer o Minotauro. Só, ainda não sei, quem ele exige no altar dos sacrifícos. Mas conheço as lendas. E sei que já não se ofereçem, virgens, pela escassez, nem as mulheres, de silicone, acham direito se oferecerem a longos destinos. È tempo de penúria, nos amores, sem ela. Bebo e espero. Mas o tempo, eu sei, se alimenta da carcaça das horas...