Estava nua quando a música tocou no rádio do quarto. A primeira vez que pensara nele como homem foi quando se descobriu vontade no seu rosto, ao sair da piscina. Sentiu cada gota de água de seu corpo escorrendo nos olhos dele. Achava-o um gato, mas eram amigos, há muitos anos. Alucinou. Dois meses depois passaram um fim de semana juntos. O primeiro homem depois de mais de quinze anos de relacionamento. Chorou sobre o corpo dele, no primeiro orgasmo que teve. Menos, nas noites seguintes. Disse-lhe não saber o que lhe acontecia, tanta vontade de fêmea. Sentia-se desfalecer ao ouvir seu nome dito em diminutivo, como chamado, na boca dele, a mesma que retinha seu gosto e lhe devastava as extensões da barriga e as resistências. Não ofereceu recusas, nem inocências. Ele quis permanecer. Ela não pode cumprir a jura de não abrir mão de o ter. Era casado. Sentiu os desejos e as dores silenciosas da escolha a cada vez que dançavam. As lágrimas e os gozos solitários, mas seguiu, com o que restou, em frente. Não esqueçi, mas passou, dizia. Mas tinha alambrados secretos. Como agora, enquanto fazia amor, ouviu seu nome em diminutivo, como o outro fazia, e a velha música lhe revirou...
Retirou o vestido de flores do armário, como há muito não fazia, e deixou que o ferro lhe refizesse o vinco e o vigor. Escolheu uma lingerie preta ao invés das marrons de todo dia. Colocou pratos novos na mesa. Resfriou um vinho. Esperava alguém, na primavera. Acendeu velas sobre a pequena mesa. Banhou-se, como se água lavasse os enganos e as dores. A pele, sem pudor, cheirava ao sabonete, com frescor e outro viço. A roupa destacou o corpo ainda rijo, como sempre fizera. Costumava chamar a atenção dos homens. Sempre parecera pouco acessível aos olhares, embora adorasse dançar. Deixou os cabelos soltos e usou um batom discreto que, apesar disto, lhe realçou a delicadeza dos lábios. Um pouco de perfume atrás da orelha, onde, lembrou num calafrio, adorava ser beijada. Abriu a garrafa. Deixou que o aroma lhe invadisse o nariz, como se o futuro tivesse as flores e frutas maduras do vinho. Ligou a TV e sentou-se pra esperar. A campanhia tocou. Ajeitou o vestido e foi abrir a porta. Recebeu a correspondência que o porteiro, espantado, lhe entregou. Voltou ao sofá. Bebeu outro gole. Não sabia quando a primavera haveria de chegar...
Sentiu o corpo dele tateando o seu enquanto dançava. Diferente de tantas outras vezes que já o haviam feito. Havia qualquer coisa de homem. De conspiração. Como incursões secretas, sinais de dono e pedidos, imperceptiveis aos outros casais que dançavam. O coração acelerava junto ao dele e seu vestido pareceu ter-se incendiado. O tênue limite entre o sim e o não. E a vida inteira que cabia ali. Ainda guardava a memória de um beijo em que havia lhe pedido que nunca mais beijasse ninguém do mesmo jeito. Perdeu-se. Sentiu o corpo mudar. A renúncia a suas certezas e aos dogmas de isopor. Voltaram ao hotel onde estavam em quartos vizinhos. Embaraçou-se na própria vertigem e o corpo, como um açoite, a guiou quando ele girou a chave. E soube, a paixão e a fome em comunhão, que não era mais possível voltar...
Trago tua memória feito desenho de giz sob a curva e segredos de minha mão. Não sei quem és, nem como te vestes. Não conheço as palavras que diz ao acordar, nem como te sentas na varanda. Nem como andas sobre as cascas de maçã. E, no entanto, sei tudo de tua vinda. Ao longo dos anos vivi tua ausência, a falta de tua posse, o cansaço de quem nunca respousa, de quem nunca amanhece senão com os olhos de quem deseja o infinito. Ao longo dos tempos me reinventei. E morri de todos os enganos que cometi em teu nome. De quando pronunciei tua descoberta em vão. E agora, é tarde. Já se anuncia no quintal, o último armagedon...