Um lugar de palavras no meio do nada

Sábado, Abril 29, 2006


[8:00 AM]

Sono e memória

Tem coisas que acontecem comigo que nem eu explico depois. Até morrer de sede em frente ao mar, mas é que, às vezes, é melhor o que é dado, espontâneo, do que o tomado. Mas há sempre, sempre, algo de infinito, quando há um sono em comum...
E muriçocas não sentem frio, decididamente...




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Sexta-feira, Abril 28, 2006


[8:23 AM]

Espólio e Reinvenções

Todo amor, tem um espólio. Tanto maior, maiores as referências. Nos cenários, nos risos, nos lençóis, nos costumes. Nos costumes também, porque há, nas mulheres, especialmente as que amam de forma desmesurada, um mimetismo do outro, um fazer-se o desejo do outro, a moldura das vontades do parceiro, o jeito de fazer amor, de ficar no banco do passageiro, da roupa que usa. È imperceptível. Um diluir-se inexoravel no seu homem, de que só são capazes as mulheres e raramente, raramente, os homens. Até onde nos libertamos desses amores na memória, se for verdade que nos libertamos destes amores na memória? E quantas vezes voltaremos em recaídas, na eterna perdição dos ex-amores, dos sonhos que fazem incompletude, especialmente aqueles interrompidos, que se findam antes que o amor acabe? Até onde vai a nossa capacidade de renovação, de recriação das próprias inocências, sem contaminações, se nos parecemos incapazes da libertação de um amor tecido em ferro, fogo e descobertas? E de se fazer maior do que tudo que já se tenha sido, se fomos no limite. Como oferecer a limpida água dos olhos aos novos beijos de amor. É possível ? Cartas para o missivista por favor....





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Quarta-feira, Abril 26, 2006


[10:26 AM]

De volta para o futuro. Ou o passado

Em verdade, não são as águas de Março, mas as chuvas de Abril que trouxeram ontem, de volta, à memória dos peixes, o baile imaginário da moça do lado do pôr do sol.




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Sábado, Abril 22, 2006


[11:19 AM]

Acalanto


Queria poder escrever um texto bonito, que fosse como uma garrafa de naufrago, esperança de cortina, lançada ao mar e as marés, que resgatasse os que amam em vão, os perdidos de desejos, os desesperançados, os que, cedo demais, se desfizeram da ilusão do amor.
Um texto que fosse como uma prece aos que duvidam, acalanto aos ouvidos cansados das juras vazias, aos doentes da paixão que se consomem no próprio fogo, ao que se rendem ao desespero das ausências e adagas da saudade. Que fosse ameno como aquele vento breve, da manhã, quando abrimos a porta, que saciasse como seio de uma mãe ao filho com fome, que fosse seguro como os braços de um pai, ao filho com medo.
Queria escrever um texto compreensível em todas as línguas, inclusive aos brutos e aos que não se ouvem. Que guiasse os que se perderam na burocracia do cotidiano, que aquecesse os que, sozinhos, dormem ao medo, ao relento da solidão. Que abrandasse o coração dos que sofreram, que o amor é sempre esta armadilha, e os fizesse novamente ter uma leveza de neblina, a cada recomeço, como só tem quem nada de braçada, entregue ao seu primeiro encontro.
Queria a sabedoria dos monges e a habilidade de uma rendeira para tecer um texto em que inventasse só palavras novas, a serem todas inauguradas amanhã, por seus olhos. Que removesse o encardido da alma, que vai ficando em quem se mágoa, mesmo com as minímas desatenções, arisco que é o amar, e a angústia que imobiliza os lábios. Que fosse belo, pão, com fios de afeto e paixão, oque confortasse as lágrimas que choram as mulheres que sonham e se doam.
Enquanto ainda estás imóvel, eu queria um texto que pudesse ser puxado como cobertor nas noites de frio e desamparo. E ele tivesse tua medida exata...





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Sexta-feira, Abril 21, 2006


[1:11 PM]

Escolhas

"o importante não é inventar. É ser inventado, a cada dia, e nunca estar pronta nossa edição melhorada"... CDA


O humano, em nós, é diverso. Somos capazes de supremas violências e, no entanto, somos todo fragilidades. Incertos do nosso poder, de nossa capacidade de sobreviver, do que podemos tecer com as próprias mãos. E ficamos, sempre, dependentes do referencial externo, do outro que nos alimente e diga que somos sim, aceitáveis.
Estranho isto, porque temos um vasto poder dentro de nós. Podemos criar as mais loucas, intensas e plenas histórias de amor. Porque somos capazes de vencer tudo por um grande sentimento. Sabemos que podemos. E , no entanto, nos deixamos desmontar como incapazes, à primeira ameaça de partida, como se fosse o outro e não nós próprios que tivessémos criado a imensidão do que sentimos, para doar àquele outro que achamos que merece toda imensidão do que criamos para doar. E nos desfazemos em medos, incertezas, fragilidades, como se a vida fosse breve e fossémos apenas um hiato.
Claro que, quanto maior o ato de ambição que sonhamos, maior a dor da perda, o desfazer dos projetos inconclusos e, por vezes, o temor do reinicio, da tola ilusão, própria do amor , de que ninguém representará a mesma imensidão, do que o que foi perdido. Temor, talvez, que deva ser não da existência de alguém, mas da capacidade própria de conseguir se doar outra vez, sem defesas, em tal escala; de certas emoções inaugurais, todas entregues a alguém e que não poderão ser repetidas; do mimetismo ( muito na mulher) que fazemos do amado (a), assumindo cada vez mais, em si mesmo, o "ser" do outro e que, em determinado momento, faz parecer que não existe mais a separação dos corpos e alma.
E, no entanto, apesar de sabermos que todo dia nos inauguramos únicos, esquecemos que somos capazes de nos dar para amanhã a nossa maior " edição melhorada".




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Quarta-feira, Abril 19, 2006


[8:55 AM]

Acalanto...

Meus filhos tem 14 e 11 anos. Todas as noites, exceto nos plantões, eles me pedem que os coloque pra dormir. Acabo sempre colocando primeiro a menina e depois ele, com alguma reclamação, lógico. Ele me pede a benção e diz que me ama e eu durmo em paz, geralmente antes dele. O motivo que sempre me escolheram, como companhia da noite, foram as palavras. Todas as noites, quando menores, eu lhes contava uma história. Ou cantavámos uma parlenda conhecida. As histórias não eram as tradicionais. Era sempre uma que eu inventava ( O barquinho medroso, o país da pastelândia, a formiguinha com dor de barriga, a casa sonolenta, a estrelinha que caiu do céu, os guardiões de geladeira, a invenção dos vagalumes, etc...) Em verdade cada história acabava tendo um fato do dia deles, com um romance em volta. Cada noite, uma história. Depois ele cresceu, mas ela continua gostando de histórias. E quando vem do colégio, me diz, às vezes, que ela ainda é a única menina da sala que tem um pai que ainda conta histórias. Brincando, eu digo que ela ainda vai me contar muitas e muitas. E que, como ela, eu também vou fazer de conta que acredito. Ela ri e acho que ela entende mais do que a gente sempre pensa que os filhos entendem. Mas, apesar de tudo e de se dizer pré-adolescente, ela não resiste. Deitamos, ela bota uma perna nas minhas costas e diz com voz de chantagem dengosa, imitando criança; " conta uma totória. Olhando pra mim. E não dorme viu?. E, eu conto. E, ás vezes a história é tão boa, que durmo. As histórias vão ficando cada vez mais dificieis e elaboradas porque as bobagens de quando era pequena já não podem ser mais. E inventar uma história diferente toda noite não é facil. Mas, posso ver, na meia luz do quarto, mais nas noites de lua, quando a pego de surpresa com algum detalhe, a boca se abrindo, o riso se formando, ela se acolhendo naquele acalanto, e a criança que deviamos ser sempre, lentamente ir adormecendo. Retiro sua perna, a cubro, e me vou. As vezes, antes de dormir, ela pede que eu não vá embora. Eu prometo que vou encontrá-la no sonho. Ela diz: " nem vem né pai. Pega leve". E cada uma destas noites me salva até a noite seguinte, quando ele disser que me ama e ele me pedir a totória. E eu serei grato ao Deus que me deu as palavras, o fío invisivel, que nos mantém ligado. E fico aqui, grande que sou, adulto que sou, senhor que sou, apenas desejando que em uma vida qualquer eu também possa deixar que minha perna descanse sobre outra e ouça uma história sendo contada e, sabendo que ela não irá embora, possa nela, adormecer, como meu acalanto...




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Terça-feira, Abril 18, 2006


[3:38 PM]

O amor foi uma festa que terminou
aquela noite, era Outubro.
Ela dançava, ofereçendo
sua carne de fêmea
e os demônios nunca mais
calaram seus risos.

E, na memória, latejante
ainda se rasgam suas juras.

Era preta, sua última dádiva.






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Quinta-feira, Abril 13, 2006


[6:16 AM]

Bom dia

Desejo que todos se fartem de chocolate, comam muitos ovinhos ( cuidado, cuidado...não me entendam mal. Olhem a proibição de comer carne....) e tomem bastante vinho sagrado. Tenho uma última caixa de Godivaaaa ( O melhor do mundo. Deus é belgaaaaaa) e um pote da Lindt( humm--humm. Um tubo em plástico, maior que o da foto..Digo o tamanho pra imaginarem o tamanho da perdição), que irei sacrificar. Chocolate em semana religiosa não engorda e vinho, é claro, não embebeda, nem dá ressaca. Quem perguntou o local de encontro do post de ontem, depois eu dou a localização geográfica-afetiva. Depois de exato, um ano, estou de volta, mesmo...E até a volta que eu já tou indo....

Lady Godiva


Lady Godiva




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Terça-feira, Abril 11, 2006


[5:48 PM]

Retorno

Falta de cuidado e carinho tem limite. Desatenção. Desinteresse, na realidade. Meia palavra basta, mesmo pro mal entendedor. Prometo-me. Vou voltar a andar com meu jeito antigo...E já vou tarde demais...




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Domingo, Abril 09, 2006


[8:07 AM]

Cuidado zero

Alguém sabe onde vende chá pra sem vergonha? Eu preciso beber um caminhão. O que é isso!!!




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Terça-feira, Abril 04, 2006


[12:14 PM]

A mulher que procuro

A mulher que procuro tem lírios semeados na varanda dos olhos onde o sol se perde, sem vontade de ir. Tem qualquer coisa de criança que fez uma travessura e ri, reinventando a vida, sem castigos. Acredita no amor, como se fosse ela própria espécie em extinção e seu homem a única possibilidade de milagre. A mulher que procuro tem mares inteiros que oscilam ao movimento de seu corpo e constelações universais que se modificam ao seu olhar de convite.
A mulher que procuro está sempre grávida dos filhos que deseja e guarda vestidinhos nas vontades para a filha que um dia vamos ter. Ela entende que é possível salvar o mundo e que estou certo se isto for feito no horário do jantar. Se ela for junto. Claro. A mulher que procuro traz uma última esperança de bondade, como o fogo de Prometeu e me lê nas entrelinhas. E sabe que sou apenas o ofício de sua leitura.
A mulher que procuro gosta do cheiro que tenho dos seus cabelos soltos, ainda que não saiba, ao certo, qual é, pois todo o dia se enfeita de um diferente. E sabe que irei me perder quando vier, banho tomado, a pele ainda cálida e fresca, a inocência do sabonete anunciando sua vinda como as trombetas de mil castelos, a inundação de mil rios a varrer as incertezas do amor.
A mulher que eu espero dormirá com minhas mãos entre as suas para me proteger e se acolherá nos meus braços, só por esta certeza. E me puxará pela mão, inadiável, só pra fazer uma festa de dois ao pôr do sol. A mulher que me alucina terá, ocasionalmente, tristezas súbitas em seu coração, só por pensar que um dia poderia não amá-la mais, mas que não duram mais que um dia, após o qual passearemos de bicicleta e ela não mais se lembrará.
A mulher que espero me deixará cuidar de seu sono, lhe ensinar palavras novas e acreditará mesmo que posso salvá-la quando beijo as lágrimas frágeis de seu rosto. Sabe que sentirá coisas inexplicáveis, me perdoará a incompreensão de homem e se conformará pois sabe que só os fabricantes de chocolate sabem tudo a respeito de suas necessidades.
A mulher que eu procuro não me deixará desistir e terá um jeito simples de quem veio da roça, de quem senta na banca de madeira lá na fazenda e nos respira quando chove e a terra fica molhada. Toma banho de chuva comigo e conhece as cantigas de ninar do vento no bambuzal. A mulher que procuro tem mil canetas coloridas como seu último desejo de menina e o gozo irrepetivel como seu último segredo de mulher.
Ela tem algo mais que linda, que isto não é bastante numa mulher, mas acredita que todas as fantasias de amor foram inventadas por nós dois e por isso dançaremos juntos nosso baile imaginário e nossas pernas nunca mais se desembaraçarão. A mulher que espero não sobreviverá sem flores em razão de nossa própria fotossíntese, sem água na cabeceira da cama e alguém que faça congelamento que nada é perfeito.
A mulher que espero é apenas a mulher que não virá..





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Sábado, Abril 01, 2006


[1:04 PM]

Conto...


Ela se dissolvia lentamente, volátil, a carne se desfazendo dos ossos da memória, o engano dia a dia se incrustando feito veneno, na respiração, imobilizando o olhar. Os fogos de artifício de sua aparição apagando-se feito giz na chuva temporã, a luz da distância, implacável, revelando as indelicadezas, os escuros da alma, a secura das verdades, as faltas, os jogos de amar que minam a inocência.
Ela se esvaia em movimentos de recuos, feito um samurai que desiste de morrer por sua honra e abandona sua legião à lamina dos inimigos, a solidão dos descampados, à terrível solidão dos desesperançados. Ela se diluia como a noite que esvanece, invisivel, ao sol. Imensa e escassa. Vasta e mínima. Fartura e penúria.
Ela se desfazia como se os jardins plantados na sua espera, nas leiras do seu riso, não fossem mais terra de render flores. Nem lírios ou girassóis. Como semente, gineceu, que resiste em florar e ser avenca. Pétala que desiste de pertencer a rosa. Gota que oscila e se retém. Que não cai. Como sopa que escorre, fria, pela margem do prato, sabendo que nunca tocará lábio algum.
Como um dialeto de amor, sem descendentes que o digam.
Ela se dissolvia das pontas dos dedos, apagando as digitais do seu útero, das mãos dadas ao pôr do sol. Como um filho que não retorna, brinquedo que não será comprado, vestido de flores azuis e amarelas que não será usado por uma menina de tranças no cabelo, selo sem carta de amor, barco que faz meia volta e desiste do cais, abismo sem salto.
Ela se perdia feito uma mulher que negou, ato não consumado, corpo que não se rendeu, alfabeto sem palavras, ouvido sem segredos.
E quanto mais invisivel nele ela se tornava, mais ele o amava e mais ela se diluia. E foi então, como um ato final, que ele a amou como nunca havia amado e como nunca a amaria outra vez...





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