Não ofereço palavras de mansidão. Se queres evitar, me nega o teu corpo. Se queres fugir, me nega o teu corpo. Se temes se perder, me nega o teu corpo. Se temes, me negas. Porque não sou homem que ofereça alternativas na minha posse. Eu escolho por onde te levar. E romperei os teus limites, devorarei tua consciência. Eu direi todas as obscenidades de meus desejos, ao teu ouvido. E te levarei pelas pedras de cada uma destas trilhas.
Irei atrás de violar o que tu ainda não tiveres de possuído e salgarei cada pedaço de tua carne que oferecestes a outro. Eu quero que tu ores por teu gozo e blasfeme por sua repetição. Eu te escravizarei para que nem tua boca sem minha língua te revirando, nem teus seios mordidos por meus dentes, nem tua boceta invadida até a dor que tu não recusas, nem tuas coxas, em dorso, em inverso, se bastem de viver sem minha exata forma, de ti. Nem tua garganta grite outros chamados, nem teus lábios outras delicias.
Eu te farei partir no navio negreiro, te violarei os controles. Eu não te pedirei permissão. Não pedirei licenças, não farei aceiros e rodeios. Te tomo, como homem. Se temes, me recusa teu corpo. Não deixe que ele se molhe de minha falta, não se curve, não me ofereça o delírio do teu ventre de costas sobre a mesa, nem a alegoria de tu, presa no ar de nossa volúpia, suspensa em mim, no baile profano e sacro, de teu prazer irrepetível.. Não deixe que eu te alicie. Nem que te prenda, no visgo, no sêmen, no amor de homem refeito e não te permita rotas de fuga. Antes que eu te feche as portas.
Não deixe que suas coxas dance ao redor de minha boca, fio de água escorrendo de suas negações vencidas, mar de sal e cheiro. E, todas as vezes que fechar tua mão, sozinha, feito um arabesco no ar, saberá de que vazio ela se ressente. Pois foi tua mão que erigiu o que é teu e te ocupa.
E sabes que pedirei que me engulas porque cada célula de teu corpo haverá de registrar as minhas, na sua memória. E ainda que tu me esqueças, que tu se negues, ainda que tu sequer lembres e mate dentro de você cada riso, cada território cedido de tua alma, do maior amor de todos, em cada reedição, ainda assim, tu não poderás arrancar o que de mim ficou exilado no teu corpo.
Já escrevi assim. Agora ou um dia, alguém me fará, de novo, fazê-lo
Eu vim aqui e lhes contei de esperanças e amores. De como deixei que o melhor de mim morresse, no seu navio negreiro, de exílio, e me desfiz aos olhos de todos, sem ter vergonhas do sentir, eu que me enganei de destino.
Eu vim aqui e lhes contei de filhos e infâncias, das histórias que invento para que o sono de minha filha seja preenchido de fantasias que eu crio e do meu filho seja cheio de nossas escolhas.
Eu vim aqui e contei do que sou e do que não serei, dos ventos que me asilam e das dores que me magoam. E lhes contei das coisas comuns, das safras dos vinhos, das receitas, das aulas e dos dias de sol a sol.
Eu lhes contei de lutas que, ás vezes, nem sei porque lutei: a preservação do Casarão dos Olhos Dágua, a criação da Faculdade de Medicina e seu duro cotidiano das pequenas trapaças que o serpentário universitário nos aplica, a Tribuna Feirense para que esta cidade tenha um jornal diário que resgate o respeito que um jornal deve ter e mais ainda a árdua luta para manter o Tribuna Cultural, nosso suplemento de arte e cultura. E ainda fazer a coluna do Leegoza duas vezes por semana com críticas que só geram reações.
Eu lhes contei de meus choros, encantos, do curral de casa, da minha roça e seu vento no bambuzal, que é meu único lugar seguro.
Eu vim aqui e fiz poesias, fiz músicas, fiz lendas.
E hoje tou cansado e me pergunto por que e pra que fiz tudo isso...? E espero que descubra a que tudo isto serviu...
Eu queria mesmo era morar com as flores e só ter uma estação.
É sábado e "todo mundo sempre espera alguma coisa de um sábado a noite". Então se você vai servir a lua na janela, tomar um vinho e ela vem com um vestidinho, toda linda, o cabelo ainda molhado com aquele cheiro de inocência depois do banho e vocês vão ficar juntos achando que se bastam e o mundo é só uma conseqûencia e vão falar bobagens, descalços no tapete, deitados de mãos dadas... Bem, bem...me matem de inveja.
Agora, quem bebe vinho, deve tomar bastante água. De preferência com gás porque ele atiça as papilas gustativas. Mas, se não for, sugiro que, na hora de serví-la, você pegue um jarra e coloque algumas ervas ( inteiras) na água. Pode ser uns pés de hortelã, capim santo, de manjericão, ou de outra ( eu sempre coloco mais de uma) que você goste do cheiro e do gosto. Fica uma água deliciosa e ainda é um charme na hora de servir se(u)s convidados. Caso demore muito pra ser consumida você, de vez em quando, troque a água, se preferir que o gosto fique mais leve...É uma delicadeza tá..? Bom fim de semana, lembrem de mim pelo menos na hora de bebê-la e saudades...
Bom dia aos que lêem silenciosamente e aos que se pronunciam. De vcs é feita a vida deste blog. E a minha própria. Por isso bom diaaaaa...
Hoje, às 15h, será assinado na Prefeitura, o contrato de restauração do Casarão dos Ohos D'Àgua, o mais antigo imóvel de Feira, com a Pirelli. No último sábado fizemos mais um artigo no jornal sobre isso, que não postei por ser longo. . Ontem o prefeito nos convidou para a cerimônia de assinatura. Enfim, a longa luta valeu. E todos que participaram podem se sentir felizes.Tenho aula da Pós, em Salvador, mas vou tentar voltar a tempo. É justo. Afinal se eu critiquei agora tenho que aplaudir o resultado. No fundo, acho que estou sendo é egoísta. Talvez queira apenas que meus filhos um dia se orgulhem de mim, ou fiquem com alguma lição, além dos meus erros e falhas.
Bem, mas por favor ( até os silenciosos) não deixem de ler o post anterior da música e votarem em uma das opções..
Quero uma mulher que seja capaz de me amar contra a maré, que não meça oceanos, que não hesite, que me faça sua escolha, sua opção e não uma circunstância. Uma mulher que não tema desafios, nem admita o final dos amores. Porque quero uma mulher que tenha um amor em que eu acredite, em que possa dormir sem receios da distância de seus braços. Uma mulher de tanto amor que não cogite partidas, que a morte não nos separe. Eu sei. Tô pedindo demais. Não tenho tanto que mereça tanto, mas não custa sonhar...
Ah, mas se nada for possível, tu me deixa ficar, então, com a menina dos teus olhos...
Não são os motivos, as justificativas, que nos contam, que importa. Nós apenas acreditamos naquilo que desejamos acreditar. Mesmo quando você identifica todos os movimentos do outro ao seu redor e as razões por trás de suas atitudes, ainda assim não importa. Você apenas vê aquilo que atende aos seus desejos. Ah! Mas convém nunca subestimar o perceber alheio...
Admito. Sou, não eu. Sou, o outro. Minhas palavras morrem de seu próprio veneno se escrevo sem destino. Sou onda que rebenta, repetidamente, suicida, no casco do navio. Fico espuma. Desoriento as bússolas. Minhas palavras são pulmões, secos de ar. São escravas querendo servir à sua senhora.
Admito. Sou. Não tenho pontos cardeais, nem meridianos, nem pólos. Guio-me por seu destino. Meu dia é uma incógnita. Revés de cais. Abandono ao avesso. Admito. Sou ofício da mulher que quero. Ferreiro. Ela, minha forja. Se só, me findo. Sou um vendaval a favor quando me dou. Sou estiagem, veios abertos, se não tenho a quem me doar.
Curvo-me. Escrevo porque há uma mulher que amo. Aceito. Sou sua conseqüência. Não me basto do ilimitado. Quero é ser as fronteiras de sua geografia. O limite de sua viagem, o fôlego do alcance de suas pernas. Não quero ser eu. Já me tenho, por tempo demais. Amar, é ser ela. E, ela, ser eu. E, então, ciclo, mimetismo, ser eu. Mas nela. Meu escambo, permuta, barganha. Minha estadia. À vista de todos os meus mirantes. Acato. Sem olhos que me leiam, sem os aceiros de um ar de dona, não sirvo. Sou o inútil das coisas. A vida é poeira suspensa sem chão pra cair. Água de chuva, sem pétala pra umedecer. Apascento incêndios. E oscilo sobre os abismos.
Doí as dores marginais e aprendi a calar as bocas esfomeadas da memória e dos desejos. Confesso o que negaceei nos labirintos. Dobro os joelhos. Rezo, no sal. Minhas palavras não têm verbetes de significados. Elas são apenas a esteira de palha, leito em mim, onde desejo que deite a mulher que me fie homem. E, se preciso, arranhe o dorso com o movimento de meu corpo a lhe domar.
Sei partir. E faço. E fiz. Só, agora, ainda não sei por onde ir.
Na falta da inspiração semanal coloco um post da Meraluz do QuelqueChose
Amor não, tirania das emoções
Foi bom me reconciliar com Vera e vê-la refeita, alguns anos depois. Pelo menos, assim me pareceu. Em se tratando de humanos, nunca arrisco palpites definitivos. Cheguei a pensar que Vera nunca mais se libertaria daquele mal, que ela insistia em chamar de "mal de amor". Minha amiga nunca me perdoou por eu ter apontado sua "doença", foi mais cômodo se afastar. Mais cômodo para o seu próprio desespero.
Vera nunca tolerou ouvir de mim que o que ela pensava ser amor não passava de idéia fixa, de uma obsessão, de um desequilíbrio que sua cegueira emocional não lhe permitia perceber. Sei que não nos cabe julgar ou diagnosticar os personagens de nosso afeto, até porque não somos donos da verdade. Mas, exatamente por serem pessoas "afetas ao afeto", acabamos emitindo opiniões na ânsia de vê-las libertas de dores e angústias que maltratam suas vidas.
O fato é que não suportava mais ver minha amiga naquele estado de total autodepreciação. Incomodava-me ver aquele flagelo humano, vítima da tirania de uma paixão insaciável, que dela se apoderou, talvez, como resultado de muitas fragmentações de sua mal resolvida existência, de feridas antigas e mal processadas, sabe-se lá - dentro de cada um há mais mistério do que pensa o outro... Queria vê-la novamente inteira, forte e poderosa. Era o cúmulo do desperdício ver uma mulher tão inteligente e bela insistir na sua total destruição.
Lembro bem de nossa última conversa, sentadas à mesa de um pequeno Café, numa tarde chuvosa:
Vera: - Está me condenando por amar alguém até as últimas consequências?
Eu: - Não, Vera. Principalmente porque isso não é amor, um dia há de entender que não é. Minha experiência diz que o amor é bom, que não é posse, que é sábio e grande o suficiente para deixar o outro partir, quando a relação se quebrou. Minha experiência diz que aqueles que enchem a boca pra falar de amor e agem assim como você vem agindo não passam de seres incapazes de amar a si próprios, o que, por sua vez, leva-os ao egoísmo dos sentidos e retira-lhes a capacidade dar amor a quem quer que seja. Amor pode até doer, mas dói em paz, com uma dor de alívio que tende a passar, e não com dores movidas pelas turbulências de uma psiquê fustigada ou pela animalidade dos desejos primitivos.
Seus olhos me fulminaram de raiva, ela me odiava naquele momento, tenho certeza. Eu dizia tudo aquilo que ela não desejava ouvir.
Vera: - Você fala assim porque não tem coragem de mergulhar de cabeça na vida. Eu sei que ele voltará a me amar, é uma questão de tempo.
Eu: - Vera, minha querida, o que eu quero é você de volta. Será que não vê que sucumbiu no meio dessa "doença"? Por que não desce de seu orgulho e procura uma ajuda terapêutica? Faça isso por seus amigos, se não quiser fazer por si mesma, se dê uma nova chance. Desse jeito, até convivência com seus amigos vai se tornar inviável, e você acabará isolada do mundo. E digo mais: tenho pena desse homem que encarna o objeto do seu desejo. Ele precisa partir e você não deixa. Castiga-o com chantagens emocionais baratas e ameaças de escândalos. Olhe pra você, criatura! Parece até que tem prazer na necessidade mórbida de se sentir rejeitada. Não, Vera. Isso não e'normal, não é digno. As histórias têm seu tempo de duração, não passamos com elas quando elas passam. Temos de continuar. Aceite o fim, amiga. Aceite o fim, para que você recomece, para que, descansada de seu passado, possa criar histórias mais felizes.
Vera: - Belas amigas tenho eu, que só fazem me jogar mais pra baixo ainda. Pára! Pára! Pára! Eu não quero ouvir mais nada! Quer saber? Suma da minha vida, não preciso de amizades assim. O problema é meu e eu resolvo, não preciso de conselhos. Não vou procurar terapeuta nenhum porque não sou louca! Era só o que me faltava... Agora me chama de louca também... Eu não estou louca, tá ouvindo?
Eu: - Calma... Nunca achei que fosse louca, Vera. Só acho que seria bom consultar um psicólogo para se autoconhecer e para usar sua própria energia a seu favor. Está certo, moça. Eu vou sumir, até porque não suporto mais vê-la nesse estado de autoflagelo.
Vera: - E não me procure mais, por favor.
Eu: - Está bem, vou mesmo. Mas... mesmo sob seu protesto, deixo aqui o telefone de um psicólogo amigo meu que pode fazer muito por você, acredito. Se um dia mudar de idéia, procure-o! E não me odeie por isso.
Passaram-se 3 anos. Nunca mais estive com ela. Ao reencontrá-la recentemente, para minha surpresa, deparei-me com uma outra Vera: autoconfiante, mais serena, mais madura, mais bonita. Depois de fazer um breve resumo de sua nova fase e de como se curara daquela "doença" (palavras dela) fatal, desculpou-se pelo injusto comportamento que teve comigo, agradeceu a indicação do terapeuta, que acabou consultando, e apresentou-me seu novo amor. Desta vez tinha cara de amor de verdade, daqueles que dão prazer e crescimento, daqueles de fazer sorrir. Por quanto tempo o sorriso franco de Vera esteve trancado... ! Não pude esconder meu contentamento, apesar de algumas mágoas residuais. Enfim, ela se reconstruíra. Amava e era amada, sem qualquer vestígio das emoções tirânicas.
Ser feliz, por que não? E, se ser feliz não for possível ainda, ser em paz com a nossa própria essência. Já é um grande começo... A saúde do corpo e da alma é sempre uma questão de escolha. E ninguém disse aqui que todas as escolhas são fáceis.
Feira de Santana, que já chamou-se Santana dos Olhos D'Àgua, foi fundada pelo casal Domingos Barbosa e Ana Brandão. È uma cidade que tem origem nos tropeiros e boiadeiros, que circulavam pela Estrada Real e que faziam aqui seu pouso, pela fartura de nascentes. A cidade tornou-se o maior entroncamento rodoviário do Nordeste e já teve a maior feira livre do mundo, o que acabou por lhe dar a atual denominação. Comercial, a cidade tem dificuldades de valorização cultural, apesar de intensa produção artisitca, sobretudo poética. Há uns três anos este Casarão estava com os tratores na porta para derrubá-lo porque havia se tornado um antro de marginais. Mobilizado a imprensa o fato consegui ser revertido.
Por muito tempo, este imóvel, construido pelos fundadores de nossa cidade, foi considerado o Marco Zero. Pesquisas posteriores apontam que o casal teve uma outra residência, nunca localizada e já destruida. Este, portanto, além de representar um modelo arquitetônico de uma " civilização do couro", de fidalgos e vaqueiros que é nossa marca, é o que resta da memória dos fundadores, sendo constrúido com adobes e ostra.
O nosso caderno de cultura, da Tribuna Feirense, entrou na luta pra valer. Juntos com outros, naturalmente. Decidi pautar uma matéria de capa cada vez que completava um ano da primeira. Com a segunda foi constituida uma Fundação, mas que nada resolveu. Escrevi artigos, inclusive um chamado " O último inverno do Casarão" , que a cada periodo de chuvas ia desabando. Programei a última matéria agora em Dezembro, como podem ver no arquivo. A matéria foi muito bem redigida por nossa repórter. Após a mesma, recebi um telefonema do prefeito, chateado, que disse ser meu amigo, gostar muito de mim, etc e tal, mas que a matéria tinha sido contra o governo, que botava o governo mal. Ofereci o espaço para resposta e ele me disse que queria apenas desabafar e que ao ter algo anunciaria. Não deixa de trazer alguma aflição um telefonema destes, afinal tenho empresas que prestam serviço ao governo. Mas, enfim...faz parte dos riscos .
Há três dias o prefeito anunciou que foi a São Paulo e conseguiu que a Pirelli ( que tem uma imensa fábrica de pneus aqui) bancasse a reforma. O Casarão está salvo. Nossa memória está salva. Nosso imaginário será preservado, A luta foi de muitos a quem demos espaço para entrevistas, declarações, matérias. Mas sei que nosso jornal foi importante, ao manter o tema em evidência, contra todas as apostas e que esta última matéria foi decisiva. A Tribuna e seu Caderno de Cultura fizeram valer o seu peso. Devo, agora, reconhecimento e parabéns ao prefeito, pelo esforço. E não posso deixar de ficar muito, muito, emocionado de saber que consegui fazer minha parte por minha cidade. E, cada vez que acho que a vida me faz perder algo, que me dói, ela vem e me traz algo tão grandioso. Meu Deus. É muito boa, muito boa, esta sensação de dever cumprido. E obrigado pela chance de fazer minha vida ir valendo a pena...
Dizem que o homem só evoluiu quando passou a caçar e ingerir proteína animal. Outros dizem que nosso futuro começou quando desenvolvemos o polegar opositor que nos permitiu manipular ferramentas. São boas teorias. Como não podem ser provadas, não podem ser negadas, mas tenho a minha própria. Acho que, só saímos lá da mesmice das cavernas, motivados pela mulher.
Em verdade, só fomos caçar javalis na planície depois que nossa Eva primitiva começou a reclamar que aquele negócio de folhinha de planta e erva-mate não tava dando pra encher a barriga dos homo-sapienszinho. E o polegar opositor só apareceu porque a mulher estava cansada de limpar sozinha o abrigo, enquanto o bacana ficava na farra com os amigos, chegando em casa tarde com a conversa de que os dinossauros estavam pegando todos os espécimes comestíveis. É uma teoria como outra qualquer mas, seja esta razão ou não, a mulher será sempre o eixo central na roda da existência humana.
Somos apenas passagem em seu ventre. É através dele que entramos nas estatísticas de parto e através de seu ventre que nos continuamos como espécie. Caso haja um juízo final - se os humanos não tiverem destruído este paraíso até lá -, e um espécime apenas tiver que sobreviver no reality-show divino, aposto até minha última garrafa de vinho na fêmea da dupla.
A mulher não tem apenas a complexidade de um módulo lunar, ela tem a habilidade de quem, limitada em músculos, desenvolveu estratégias de superação. De quem sabendo não ter a força bruta da testosterona, fez do seu hormônio feminino e do acolhimento em seus braços uma arma tão poderosa que é capaz de fazer sucumbir deuses e mortais, incendiar reinos, alimentar mil anos de batalhas, encantar Ulysses e amolecer nossas pernas e certezas seja ao outono que faz cair sua folha de parreira, seja no verão, com sua marquinha de sol.
As mulheres nos acalentam como se fossem úteros eternamente grávidos de nós e , ao qual, retornamos, feitos antigos navegadores perdidos que, de súbito, são iluminados por seu chamado. Nós , homens, somos apenas ilha da mulher que amamos. É por ela que lutamos as lutas mais vãs, porque quando nos supomos capazes de voar, foi ela, como uma tecelã invisível, que construiu a teia que nos protege. É por ela e não mais do que por elas, que somos homens, espécie, em si, desprovida de fundamento e sentidos se não fossemos nós a sua presa indefensável. E insubstituível. Bem, pelo menos, enquanto a tecnologia não faz algo com melhor desempenho e sem roncar.
É esta mulher, imortal e fêmea, lição e sabedoria, aventureira e mágica, domínio e perdição, que nos faz ir em frente. Ela que não se mede, que não se teme, que ainda é prenhe de lua e feitiços, de lutas e dores, de enfrentamentos e, por vezes, silenciosas resistências. Ela, de humores e redenções lancinantes, de entregas e abandonos ao destino, aos filhos, aos sonhos, aos desejos e ao homem que escolheu como seu, o eterno caçador da planície, a ser domado e protegido, estimulado e rendido. Pois, afinal, se temos evoluído, é apenas porque Deus, fez dela, sua imagem e semelhança, fazedora dos milagres que nos salvam e perpetuam.
E parabéns às mulheres, afinal vocês são incomparáveis...
Morava em uma fazenda a 4 km da cidade. Poucas vezes ia por lá. Ainda não havia luz. Meu pai era, é, um nome referencial no local, por sua experiência com gado, rigidez moral e obsessão de honestidade e princípios. Até por volta dos oito anos estudei com minha mãe, professora, em uma escola municipal, na própria fazenda. Um dia, meu pai chegou e tirou uma bicicleta Caloi do fundo da Rural ( é um carro viu?) e me disse: " aprenda a andar que semana que vem você vai estudar na cidade". No colégio D. Pedro II. Eu aprendi.
No dia marcado, minha mãe arrumou uma pasta com os livros, prendeu na garupa da bicicleta ( aonde, mais tarde, eu traria pão da padaria de seu João Ferreira e um jornal, todos os dias, para casa). Usava um sapato preto, de cadarço, lustroso, camisa branca, cabelo raspado, bem baixo, calça azul marinho e um chapéu Baeta ( uma espécie de feltro) para proteger do sol do meio dia. Usava óculos. E uma capa de plástico, preta, quando chovia. Pedalei os 4km e fui. Meu pai tinha viajado a negócios (era um tempo difícil) e minha mãe não tinha como ir.
Entrei só, no colégio, no pátio coberto, e fiquei na bicicleta. Em minutos virei atração. Todos olhavam minha figura, em parte pelo exotismo e, ao mesmo tempo, curiosos com o filho de alguém conhecido. As gozações foram inevitáveis e eu ia me desfazendo, ruindo cada vez mais, descobrindo que, infelizmente, não existia o invisível. Era o dia do terror. Até que, uma menina, pediu que me deixassem em paz e me ensinou a primeira lição do poder, do coração, da proteção e dos milagres que só uma mulher pode fazer por nós. Ela repetia o pedido e alguns foram parando, mas não todos. Enfim, um colega chamado Augusto César, mandou que parassem e me levou com ele pra sala. Ao fim da tarde, voltei com minha bicicleta, pra roça, como quem migra da dor para o alívio, como se fosse um céu de proteção e segurança.
Durante dias ainda fui a curiosidade, com meu figurino e uma timidez que me devoraria por anos. A dor da ida, o alívio da volta. Não havia opções. E, eu soube, então, o que era ser inadequado. Depois fui sendo esquecido até me tornar meio campo do time, no recreio, por dois anos. Aos dez fui para Salvador. Nunca fiquei com aquela menina. Éramos amigos. Mais tarde até que ela namoraria com o inadequado, mas nunca houve interesse. Ficamos amigos, até adultos, como conterrâneos. Acho que ela nem lembra do que fez e há centenas de anos não nos vemos.
Depois da vida toda andada, com este jeito de vertigem que vivo, uma mulher, que foi menos minha do que o desejado - a moça do lado do pôr-do-sol -, que foi mais minha do que poderia ter sido e de quem eu gostei mais do que poderia ter gostado, me fez lembrar que eu ainda usava o Chapéu de Baeta, que me faz inadequado, em público. Mas, também, ainda que breve e incompleta, me ensinou como podem as mulheres nos salvar. Ao impedir todas as outras vontades e me exilar de tudo que me olhava, com devoção, me mostrou que existe o invisível. E ensinou-me a pertencer. Agora, que ela já não sente mais nada por mim e não nos vemos há séculos, pedalo minha velha Caloi dobrável, pela estradinha de meu chão, de volta, com o jornal feito por mim e o pão doce de seu João, de quem fui médico até o último de seus dias, aos noventa e seis anos, embrulhado no meu coração. Mas, sei que, algum dia, não estarei mais de chapéu...
Além da cantada, divertidissima, de brincadeira , da Claudia, que me pediu em casamento, qual a que vc levou e mais se lembra? Ou que soube, ou gostaria de dar?
Uma cantada poderia ser assim: um violão artesanal, com o nome dela, ou uma reserva de hotel, ou uma dessas orquídeas que tem dia único para abrir ( sabiam?) e a frase: " você toca meus acordes exatos" . Ou uma foto jovem com um vestidinho e uma envelhecida no comp ou uma imagem que desse a ideia de passagem do tempo e a frase: "o tempo que gostaria que vc passasse revelando meus acordes exatos"..Ou na versão sensual: uma calcinha, ou vc podia arrancar o primeiro botão do seu vestido, embalar o mais delicadamente possivel, com uma embalagem sofisticada e enviar dizendo que "os outros eram o restante de seus acordes exatos"..Podia ser?
Presentes
Gosto de inventar presentes. Em tudo que vc faz para o outro pode haver um detalhe pessoal. Se eu der uma jóia, crio uma história. No exemplo de cima: poderia comprar uma joia ( baratissima ou carissima, como quiser ou puder) que fosse um violão. Aí ela teria o porque. Prefiro o valor romanceado do que seu valor em si, embora as mulheres se deslubrem com isso. Meus presentes, às vezes, parecem completamente doidos. Pq os outros qquer homem pode dar ( Não que sejam ruins. Tambem os dou. Uma carteira, uma bolsa, um relógio, um cd, um laptop, uma roupa, um vaso, um carro, um móvel, tudo tem sua doação, seu gesto de procurar). Mas, acho fácil chegar na loja, mandar embrulhar e entregar. O amor merece mais. ( Bem, se for um BMW, talvez se possa abrir uma exceção..heheh).
Ao lado dos presentes "normais", gosto dos inesperados. Depois de um tempo ela nunca sabe o que pode esperar de vc, tudo pode ser uma surpresa. Já dei " um conjunto com dedal, agulha e linha de costura", por conta de uma história e proposta de vida. Já mandei bandeirinhas de um São João que ela não pode ir comigo, pelo correio, uma jóia no papel normal e uma bola de gude na caixa de jóia, pq a história da bola de gude era muito mais preciosa. Vc pode fazer alguém rodar de um lado pra outro da cidade até chegar onde vc quer ( mas, aviso: é preciso alguém que seja cúmplice) Até para um lap-top é possível inventar uma história. Claro que, com data de aniversário, namoro, natal..etc..etc. não dá pra ser original em tudo, a vida toda, que ninguem é Deus, mas improvisar de vez em qdo faz bem.
Aliás, me recordo de uma namorada a quem eu havia dado umas coisas assim, originais. Clima de namoro recente, ainda cheia de dedos. Iamos no carro, aí fui pegar algo atrás do banco e tinha uma mangueira de carburador, pouco suja de óleo. Parei o carro e dei pra ela ( digamos que ela era ligeiramente patricinha..uhahuahuuahhau), com uma cara bem séria, dizendo umas coisas românticas e simbólicas, que tinha sido meu e estaria agora com ela, etc..etc.. e ela segurando com dois dedos, sem poder dizer nada pq não podia estragar o clima, sorrindo amarelo , pasma e, provavelmente, pensando que eu devia ser doido. Depois de um tempo eu não aguentei mais e começei a rir....Coitada.... Deu pena.....Uhuahauahauahau.
Mas é isso. Sejamos, sempre que possíveis, originais. Inventem uma história, leiam poeticamente os detalhes, enriqueçam o cotidiano de quem você ama. E nunca, nunca, deixem de olhar com olhos de criança, com olhos de poesia, para o mundo. A realidade, eu lhes afirmo com certeza, não salva amor algum...
No Brasil em que jogador argentino é o craque do ano, o mestre-sala campeão é um japonês e o enredo do Boi vence em São Paulo e Hugo Chavez no Rio, nada mais deve nos escandalizar. Assim como os negócios do primeiro-genro na era FHC e do primeiro-filho na era Lula, a dupla cidadania da primeira-dama e a ilegalidade assumida do presidente em campanha e de seu partido com o caixa-dois, tudo se repete ciclicamente com furor e sem pudor ético, mal e parcamente disfarçado sob cuidadosa blindagem, nome moderno dado ao tráfico de influência com objetivo de acobertamento.
A política brasileira é única que muda, apenas para permanecer a mesma. Se não permitem a mudança no cerne, nossos políticos, por outro lado, estão sempre a criar factóides e coberturas, que sugerem transformação. Conservam o conteúdo, mas são, no entanto, eficazes em mudar os rótulos, em siliconizar as velhas práticas. Vejam que, além do esfacelamento ético total e desnudo da prática política, este governo deu uma nova face ao velho coronelismo. Lula e a ilusão socialista, já que ele mesmo afirmou jamais ter sido de esquerda ou comunista, desmoronou aos olhos da parcela mais informada do país, mas cresceu, de forma irreversível, entre os miseráveis, por conta do Bolsa-Familia. O programa é uma esmola institucional que, se não tem o poder de causar nenhuma transformação estrutural, ao menos ameniza, de forma sistemática e sintomática, a fome e as necessidades mais primárias dos que estão abaixo da linha da pobreza. Não é a toa que a reeleição do presidente parece assegurada, neste momento, com índices extremamente favoráveis, alimentada por este público-alvo e generosas verbas de publicidade.
Mas, esmiuçando o projeto, vocês verão que nada mais é do que o velho e secular coronelismo. Que já foi praticado na ponta da baioneta e na faca do jagunço, no tradicional exercício do curral eleitoral e, mais recentemente, na forma de Plano Cruzado que garantiu a popularidade de Sarney e seus fiscais e no Plano Frango ou Real, que garantiu a reeleição de FHC.
A sua ultima versão é eletrônica, institucional, com cartão e fraudes habituais, e tem o apelo irresistível do sobrenome "família", esta instituição que, se cada vez mais vai mal das pernas, ainda é nosso referencial de esperanças e sobrevivência. O cartão do Bolsa-Familia é o velho coronelismo sertanejo ampliado, urbanizado e amplificado pela moderna tecnologia de comunicação e serviços, e que, apesar de sua insignificância real, como modificador de desenvolvimento e inclusão social, tem o efeito imediato, sedutor, e socialmente justo, de saciar uma legião de miseráveis que não consegue nunca alcançar o andar social de cima, porque o país não lhe oferece a oportunidade de crescimento econômico, emprego, renda e educação.
Esta legião ainda é o que de mais útil políticos ambiciosos precisam para executar seus projetos de poder, pois estão sempre à beira do desespero e se contentam com as mesmas quinquilharias com que Cabral e seu bando seduziram nossas índias. Não é a toa que, escandalosamente, nossa elite tem a média de apenas 10,6 anos de estudo, podendo-se imaginar a média do restante dos brasileiros. A educação tem sido apontada em todas as analises como o responsável pela explosão de crescimento asiático enquanto aqui ficamos apenas à frente do Haiti.
É o nosso imenso, submisso e anônimo Haiti nacional, que sobrevive torpemente aos nossos governantes de diversas estirpes e origens, e que, sob a égide petista, é trazido à luz, não para seu resgate permanente, mas apenas como veículo para viabilizar uma nova apresentação de uma velha prática: o coronelismo de plástico.
PS: publicado, no sábado, no jornal Tribuna Feirense.