Um lugar de palavras no meio do nada

Terça-feira, Fevereiro 28, 2006


[10:05 AM]

Busca

Eu quero aquela que confesse, apaixonada, que meu corpo e voz consegue tocar os acordes exatos dela. Os acordes exatos. Os inconfessáveis e irrepetíveis. Aquela que rompa a bainha dos nervos nas minhas mãos. Que emprenhe de mim os poros que vazam e a alma de desejos líquidos e febres...Incuráveis!!! Danem-se as maldições. Tenho urgências. Que venha...




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[1:08 AM]

Promessa

Devia tanto plantão, por conta do mestrado, que trabalhei os quatro dias do carnaval, inclusive sexta, dia do aniversário. Ainda falta a terça. Foi duro. Todo mundo viajando, nesta cidade. E solitário ( isso é um perigo comigo mesmo, que ando com pressa). Never more. Ano que vem, nem que todas as vacas do Pantanal tussam juntas num acesso de coqueluche, eu trabalho no meu aniversário. E vou estar no camarote vendo a Claudinha Leite-Divino!!!. E vou entrevistá-la na Micareta, pro jornal. Ah vou! Apesar de alguns bons momentos, do aniversário, não vou incluir este, nem esta maratona ( essa foi do cacete!!!) , na minha cota de lembranças. Ufa!!!





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Sábado, Fevereiro 25, 2006


[9:42 PM]

Agradecimentos

Obrigado a todo mundo que ligou, a quem deixou aqui seu recado, aos amigo(a)s que me deram livros e vinhos e aos que me deram abraços e carinho. Obrigado pela flores ( estavam lindas, lindas) e pela farta cesta de café ( devo estar em regime de engorda, sem abate). Vocês tornam a vida possível...

beijos a todos

César




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Sexta-feira, Fevereiro 24, 2006


[7:30 AM]

Aniversário


Nasci, logo existo. Sou de Peixes, mas não sei o que isso quer dizer. Enfim, estamos aí, fazendo carnaval mesmo com o tempo passando. Boa festa pra vocês.




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Terça-feira, Fevereiro 21, 2006


[9:22 AM]

Era menino




Fui menino de fazenda. Cresci, sem luz elétrica ou Tv. As noites eram iluminadas por candeeiros e os olhos de minha mãe. E o amanhecer pelos galos no quintal e o aboio do vaqueiro juntando as vacas para tirar leite. Não havia games, nem celulares, mas nos comunicávamos por um cordão com um copo em cada ponta e dizíamos coisas sobre o céu, a terra, que seríamos felizes para sempre e mundo que não parava de rodar.
Gostava de ver o pôr-do-sol, sentado no carro de boi, que rangia seus eixos como violinos de fios intermináveis, como se fossem minha orquestra de melancolia. Às vezes, alpercatas de couro, seguia na frente, chamando Ourofino, boi de dianteira, bruto e manso, debaixo da canga a se guiar por mim, como se não fosse eu, um perdido da vida inteira.
Acreditava que a zoada no bambuzal era porque o diabo contava dinheiro ali debaixo e ria dele, e só uma vida inteira depois descobri que o vento apenas açoitava o nome dela nas folhas, - aquela tarde era inverno-, como se o diabo dos vazios agora zombasse de mim.
Quando menino, lá na roça, nas noites, sem medo e sem terror, a gente namorava as bananeiras e aprendia a beijar ao luar e, muito mais tarde, a carne de fogaréu de uma negra me ensinou que a vida era quente e boa. Fazia fogueiras que ardiam de São João a São Pedro, sem parar, minhas festas de encantos, e me fartava de milho assado e carimã, de minha mãe, mulher feita de cuidados e temperos, enquanto os fogos riscavam minha imaginação de feitiçarias iluminadas.
Era menino e, descalço, jogava o cabresto sobre o cavalo, um "calamaço" de ensacar fumo, como sela, a rédea amarrada à boca e ia banhar os animais no tanque de águas turvas. Em disparada, a sensação de que podia ser mais rápido do que o tempo. Mas, só depois da vida lançada, soube que o tempo não deixa alternativas, as pontas não se unem e que minha boca e a dela não conjugariam as mesmas lendas.
Era menino e fiz comadres na fogueira, com três voltas, risquei triângulo com arame, joguei gude, fiz manteiga na garrafa e raspei o requeijão da panela. Fiz visgueira com o visgo da jaca e peguei um cardeal, que entristeceu, sem saber que muitos anos depois eu também ficaria preso, no visgo de um desejo impossível
Era menino e palpava ovo no cu da galinha, pra saber se ela já o tinha posto. Ouvia novelas no rádio. E soube que Lucas, médico, discípulo de Cristo, curava. E eu que, rodeado de terra, feito ilha ao avesso, sequer sabia do sal do mar, imaginei que um dia curaria e ensinaria outros a curar, ainda que não soubesse remédio para o desassossego de minha alma. Menino, me curava com rezas de vassourinha e quarana e mastruz com leite, de manhã, sem saber que, criado, perderia a fé no adulto que fui e precisaria de outros vãos milagres.
Era menino e sonhava que uma mulher andaria de mãos dadas comigo naquelas terras onde fiz cercas, as minhas e as do pasto, onde combati incêndios com folhas de licuri. Que um dia me pediria que apagasse todas as luzes que hoje existem e, em noite de lua cheia, quando a vida dormisse encantada ela surgiria soberana e dona, mundana e virgem, me confiaria sua vida como quem se atiça na fogueira do destino e me salvaria do exílio em minhas dores, em seus braços, me dando seu amor de devota, irremediavelmente, para sempre. E nós nos amaríamos feitos animais sem pudor, inocentes que seríamos. E eu pensava que seria, então, um homem. E, só grande, depois que ela partiu sem se levar, eu soube que era apenas, apenas, aquele que sonhava, velho, o que era o antigo menino.





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Domingo, Fevereiro 19, 2006


[12:16 PM]

Aviso

Existo como quem dança nos ventos com a mulher amada, como quem abriga vendavais no peito e não teme nem as farpas, nem os risos, como quem deixou os mitos se desfazerem em alegorias, frágeis bolhas de sabão, nuvens de algodão a desfazer-se sob a chuva. Me exponho, entrego, me lanço, porque sei que amor tem que ser dos grandes, imortal, dos que não se dobram às intempéries, de quem não se mede pequeno. Escrevo porque tive o coração ambicioso e aprendi a linguagem dos corpos, a irrepetível linguagem dos corpos, a inesquecível linguagem dos corpos em comunhão, talhando-se feito formão na carne alheia.
Escrevo porque conheçi as trapaças do amor, as pequenas armadilhas dos desencantos, os desamparos, os muros invisíveis que se constroem diariamente fazendo com que o amor, apenas por ser amor e, mesmo de dois, não baste. Me prometo, porque aprendi a pertencer e sei dos martirios e segredos de homem. E os contarei feito escritura de boca em outra mulher, quando ela surgir.
Escrevo porque deixei minha memória de um antigo amor se desfazer em orvalho e gotejar dia a dia das folhas do capim, até a secura. Porque despedacei o sol em milhares de raios e permiti que cada um levasse algo do que ficou até sobrar apenas a expectativa do que virá.
Escrevo porque sou de permanências e memórias. Não me conjugo para a covardia dos finais. Escrevo porque você se oferece pra vir e eu preciso te alertar que costumo dançar nos ventos e abrigar vendavais no meu peito...

Veleiros na Tempestade -Pechstein




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Sábado, Fevereiro 18, 2006


[5:23 PM]

Projeto

Há uns 15 anos me cobram um livro de minhas crônicas. A Meraluz até editora conseguiu. Eu tenho, aqui na cidade, várias empresas que já se ofereceram para patrocinar e eu nunca fiz. Faço sempre as coisas dos outros e deixo a minha. As vezes faltou tempo, as vezes faltou estímulo, as vezes a parceria literária ficou no meio. E eu fui adiando. Mas, prometo, que me darei esta recompensa, este ano. Portanto, Meraluz, designer e programadora, vamos trabalhar viu?


PS: acabo de acertar um programa de 30 min, uma vez por semana, no rádio, falando de saúde e vida. Nada como ter tempo vago...Oba!!!!




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Quinta-feira, Fevereiro 16, 2006


[6:12 PM]

Pergunta que não quer me calar

Será que eu tenho que me apaixonar? Ou é melhor comprar uma boneca inflável?





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Quarta-feira, Fevereiro 15, 2006


[8:12 PM]

Lucidez

Escrevo com a lucidez dos santos. Nem passado, nem vindouro. Apenas com a lucidez que os deuses do amor tem como oferendas aos que se sacrificaram por ele. O enxergar a si próprio sem o torpor e a nebulosa inanição de viver de que sofrem os que não partiram. Nem é uma lucidez completa, nem sofrida, nem amarga, nem feliz. A lucidez não é palavra composta de adjetivos. Ela se basta. Ela mapeia a alma e vasculha saídas. Sem abandonos ou esperanças. Apenas sob o dominio da clareza, sem os ritos dos insanos e respeitando os significados, suas importâncias ou falta de, e limitações, com seu olhar cru. E é bom demais.
Sejam bem vindos.




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Segunda-feira, Fevereiro 13, 2006


[9:40 AM]

Bom diaaaaaaaaaaaaaaaaaaa pra todo mundo. Boa semanaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa! Que a vida é boa. E não deixem de ler este poema abaixo.




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Domingo, Fevereiro 12, 2006


[12:20 PM]

Poemaço que minha amiga Zula me enviou. Vc é demais mulher. É por isso que vos digo: Deus está na lucidez!
Sermenosia

Sermenosia é doença de que se morre.
Vem um padecimento de palavras tristes,
ficam os olhares fugidios
e todos os soluços sem consolo.
É só o ser amado que diz
com gesto ou fala ou escrito
que se adoeceu....
De outra forma, ninguém saberia...
e quem quereria um veneno assim... ?
e do que se sabe então, não há uso que se possa fazer...
pois a doença é mesmo não fazer, não ter, não ser
aos olhos de quem (in)justamente
se é prisioneiro por um laço de amor ,.
Ela pode chegar intempestiva:
um dardo, uma frase.
Ou lentamente: insidiosas atitudes,
de um jeito de suspirar, num olhar perdido,
num certo jeito esquivo de abraçar.
Não se sabe, só fica o horror,
o amor repentinamente inútil,
ridícula a pretensão de que, por ser amor, bastasse.
Qualquer amado, namorado, filho, amigo,
anda armado de outros desejos,
tem alambrados secretos em seus jardins,
onde fantasmas e sementes partilham
a mesma leira.
Qualquer um deles tem o dardo ou o gesto,
o veneno inconfidente [de que morri].
Se assim aos poucos fui me achando,
ou se, intempestiva, uma adaga me feriu,
não sei, só sei de angústias e desvalias
de ser menos do que ao amado bastaria








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Sábado, Fevereiro 11, 2006


[12:18 PM]

Sugestão

Pra quem for jantar, hoje a noite, sugiro Colomé, um vinho tinto Argentino, colhido de uvas plantadas a mais de 3000 m de altura ( os vinhedos mais altos do mundo), apaixonante na cor, exuberante no nariz, glorioso na boca, inesquecivel na memória. A alma do Malbec inteirinha. E pode ser com perdiz a um molho forte, ou qualquer molho forte em carne, que ele suporta sem medo. E boa relação custo/benefício...Além de que, o vinho, liberta a imaginação e as consequências são, digamos, as melhores, ou piores ( hehe) possíveis...

Foi só pra desejar um bom fim de semana a vocês... que a semana que vem tá prometendo!




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Sexta-feira, Fevereiro 10, 2006


[2:04 PM]

Bom dia, bom dia, bom dia...

Normalmente sou muito critico, muito reticente, em relação aos meus textos e sempre gosto menos do que os que o lêem. A Meraluz briga comigo há anos por isso. Acho que me cobro demais. Este texto eu queria chocante, veemente, que tirassse vocês do conforto da cadeira. Sempre que escrevo tem o lado real, mas aplicado a um tom literário. Seja na dor, seja na alegria. Aqui, neste blog, sempre foi tudo real e quase nada fictício, ainda que os textos busquem uma qualidade literária. Mas é sempre a emoção por trás. Eu não me reparto. Bem, mas devo dizer também que, certas colocações, não têm efeito real. "Matarei os filhos que não terei mais", nada tem além do simbolismo da impermanência ( como dizem os budistas), da mutação. Do mesmo modo "a primeira que me livre..." " a que me abrir o ventre" tem apenas o simbolismo da mudança temporária do olhar, sem que isto passe da palavra ao ato. Até porque, depois da vida que tive, aprendi a não me desperdiçar em banalidades.
Além disso, estes dias, estou extremamente envolvido com o Curso de Medicina, que coordeno, e do qual, por ser um dos seus três fundadores, me sinto muito responsável. Há perspectivas de avanços significativos, mas que exigem que eu consiga me manter motivado ( sei que qdo me motivo por algo eu viro o mundo), para conseguir fazer as negociações no ambiente de serpentário que costuma ser a universidade. Caso dê tudo certo terei a sensação de que cumpri minha obrigação, que não os enganei (especialmente a primeira turma que vem comigo ano a ano), que fiz minha parte para a história de vida destes alunos. O significado do curso para o futuro é tão grande que tenho até medo de não abarcar tudo. E estarei feliz por esta sensação de dever cumprido que nem vou me caber, ainda que isto pareça idealismo bobo. Esse negócio de sonhar ainda me mata..

Mas, prometo a vocês, que vou escrever, de novo, de forma amena. O próximo texto já tem título "A mulher que eu quero" e o outro é um "causo" . E um sobre a infância no interior. Tão vendo? Já tenho pelo menos as intenções...







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Quarta-feira, Fevereiro 08, 2006


[9:41 PM]

Avassalador
Sangro. Verto-me. Não ensino mais covardias ao meu coração. Não tenho tempo. Não me nego. Não me aparto. Matarei os filhos que não vou fazer mais. Incendiarei os bambuzais onde escondi meus sonhos, envenenarei os peixes que te olharam nua. Não comerei as migalhas do teu pão e não me exilarei. Esquecerei a velha infância e pedirei que me atire as palavras mais ferinas, as de hélices, as que te liberte de mim, com desprezo. Mas não me asilarei. Eu me retalharei e como a ave de rapina estarei sempre à espreita de todas as minhas idiotices de amor. Eu sou um homem e um homem não se nega. Não foge de seu destino. Dormirei com a primeira da rua que me livre de ser teu e lhe farei as juras mais falsas. Eu me enganarei todas as tardes na estupidez do pôr do sol, mas rogarei aos deuses para que ele não se ponha nunca mais e que o sol arda nos meus olhos e me cegue esta memória. Salgarei minha carne como o sal da terra, para que as flores me exalem. Sangro porque não tenho refúgios, mas baterei as portas, até não saber mais voltar. Eu cuspirei no prato. Possuirei com febre de principiante aquela que me abrir as coxas e me der seu ventre, sem me dizer seu nome, àquela que não se lavar de mim depois do gozo. Eu não margeio os abismos. Me insulto. Eu não me perdôo. E, ao acordar, todos os dias, saberei que é...amor!





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Domingo, Fevereiro 05, 2006


[2:19 PM]

( Mais um Inconcluso. Vejam os dois)

As flores do meu coração


Eu sei, ainda não é outono e as folhas que enfeitaram os amores na primavera, ainda são flores em meus olhos, embora em meus olhos o tempo de outono ensaie sua derradeira estação. É que trago flores tardias em meu peito. Nem todas, miram a luz do sol. Nem constam dos catálogos dos floristas. Cultivo espécimes únicas. Algumas apenas mimetizam uma lembrança que envelhece à distancia. Uma saudade. Outras apenas são uma tarde qualquer sob a chuva. E, algumas, são lírios de desejos carmins ou avencas esperançosas. Há, algumas, delicadas, receosas, antigas flores machucadas, que só irão se abrir a quem lhe desvendar os segredos, como os inocentes de amores. Há, entristecidas, as que morrem diariamente, por escassez de cuidados e abandonos. Mas, teimosamente, apesar de crer que o outono pode não ser um jardim às avessas, guardo flores no coração.
Escrevo antigas cartas de amor para ninguém, leio livros na varanda e a falta dela na primeira luz da manhã que atravessa minha consciência. Sonho ler todos os poemas e voltar a jogar gude tão bem quanto menino. Bebo vinho e ilusões diariamente e isto me faz acreditar que não estou morto, mas, se duvidarem, exigo que beijem minha boca por longos dez minutos e, se eu reagir, me possuam enlouquecidamente como um milagre de sua própria existência, a regar as flores em meu coração.
Adoro restaurante, gosto de pratos enfeitados e de comer besteiras, incorretas, na rua, como taboca e cocada. Danço mal, mas engano no forró, que adoro, nado pior ainda, tenho colesterol pouco elevado, mas sei andar de bicicleta, viro lobisomem toda lua cheia e cio mas, apesar de tudo, tenho leiras de flores no meu coração.
Produzo muito. Sou bastante criativo. Conto histórias que invento, para meus filhos dormirem, velhas lendas, de amores impossíveis, em que só eu acreditei. Nunca enchi a sala de casa, porque não poderíamos correr, jogar bola, até cansarmos e ficarmos deitados no granito frio, abraçados às flores do meu coração.
Sou, essencialmente, emoção. E perdi o medo do choro. Sou péssimo em jogos, não gosto de matemática, mas falto de forma sistemática a academia de ginástica. Uso óculos desde o parto, o que dificultou um pouco o nascimento, tenho alérgia a camarão, já passei dos quarenta e devo estar fora de moda, mas sei amar como ninguém e sonho flores no meu coração.
Amo as noites de lua e o pôr do sol, as coisas simples, a fazenda. Tenho períodos em que escolho roupas adequadas, outros não e dias que não calço meia por pura preguiça. Creio que para sempre é possível e adoraria que a mulher de minha vida, me esperasse todos os dias pra jantar e nunca dormisse, por maior que fosse a zanga, sem perdão. E, ainda que eu esteja aprendendo a pertencer, tenho flores no meu coração.
Adoro conversar com velhas senhoras e nos amamos reciprocamente. Tenho facilidade com as crianças e horror a falar com chefes, diretores, poderosos, onde sempre se está a um passo da bajulação. Conto piadas razoavelmente, improviso e falo muito bem, mas sou ruim com dinheiro. Faço feira como uma boa dona de casa, mas detesto arrumar a dispensa. Sei que, no outono, as folhas caem, secas, que os ossos doem feito poeira, mas tenho flores, que dizem te amo, eu meu coração.
Sei que só os amores ensandecidos são capazes de cruzar o longo outono da convivência, por isto aprendi a amar com os loucos. Sei que estou envelhecendo, embora saiba, esperançosamente, que há mulheres que colecionam antiguidades, mas tenho as flores mais novas, inaugurais, que nunca haviam florescido, apavorando meu coração.
Eu sei, eu sei. Não é outono. Hoje é domingo. É verão. As folhas ainda sombreiam todos os destinos. E, agora, eu apenas procuro uma mulher, que cuide das flores do meu coração.





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Sexta-feira, Fevereiro 03, 2006


[11:26 AM]

Antes que isto acontecesse, estava fazendo alguns textos. Agora, que ela já "não lê", postarei uns Textos Inconclusos...


Um homem, uma mulher...

Era entre as farpas de tua boca aberta, labirinto de meu corpo, me engolindo em posse, alimento, sêmen, magma, era sobre teu corpo suado, porejando meu nome, feito banho de jarra, feito casulo que se abre em parto de borboletas, feito o gotejar de minha voz a violar teus ouvidos a te dizer os desafios dos deuses, a anunciar os caminhos de te tomar, te confessando amores e devassidões, feito trilha aberta na mata ao sagrado da redenção, feito candeeiro em noite sem luz, era meu corpo incendiando-se do teu, te caçando em fuga impossível, feito facão te abrindo, cicatriz na carne, nos teus lábios molhados de intenções e esperas, a te fazer meu tamanho e forma, fornalha, doma e dona.
Era perseguir tua ambição de "mais" até a dor que te abençoava como completa, mulher, gueixa, rasgo de quilha na crista dos corais. Eram as palavras de labaredas esfolando tua nuca, os pelos de tua pelve embaraçados em meus dedos a tatear tua escravidão de fêmea, eram os demônios em perdição na fartura de tuas coxas abrindo-se lentamente, via láctea a parir um novo planeta, planta carnívora a me sugar a imortalidade.
Era saber, na geografia dos desesperados de amor, que os meridianos se confundiam todos quando tu dobrava as pernas e a calcinha, cheiro de teu homem, cruzava teus joelhos, bandeira branca de rendição. Era teu cabelo cobrindo o dorso nu, erosão de milagre entre tuas espáduas, teu corpo preso, como bicho do mato, de costas, sem saída, feito navio negreiro, a conduzir tua escravidão e minha alforria. Era o descontrole e a repetição de teu gozo selvagem, desmedido, suspensa em mim, feito estrela a dançar solta no cosmo, oceano sem terra e teu sono, tua fraqueza, tua saciedade, eram o genêse da minha fé na vida humana e nas reencarnações em que nos tivemos.
Era aquela lágrima, gota rara vazada de teus olhos- meu mar banhado em leite- quando, meu corpo todo dentro do teu, tu disses que me amava a primeira vez, nossa última vez, que me dava a única certeza de que eu era um homem!

Rodin-1886- O Beijo




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[9:37 AM]

Revés

Um dos problemas de quem ama, é a idealização. Com o tempo, enxergamos o oculto, as falhas, os limites reais. Às vezes, só após; às vezes, mesmo durante, mas somos incapazes de partir e comprometemos o futuro, pelo instântaneo. Eu, como qualquer um que ama, também fiz o mesmo. Mas, a verdade, é que, mesmo dentro de nossas possibilidades, nunca fui amado de forma igual e nunca fui cuidado, com as coisas que um amado faz pra encher o dia do outro.
E, apesar de ser tão intenso e mágico, e sentir, ela não conseguia expressar, como dizia Vinicius, " seu pesar e seu contentamento", ainda que tenha se apaixonado e até ido além dos limites. Mas, ainda que tenha sido imensa, ela não viveu a plenitude, como uma força que move, que arrebata, que domina, que ocupa, que é visceral. Mesmo que durasse dez dias, mesmo que durasse cem anos. Mesmo que fosse todos os dias. Mesmo que fosse um único encontro.
Aprendi, a duras penas e perdas, que não é a quantidade da presença que faz um grande amor, é a qualidade da presença. Um minuto único por ano. Mas todo. Se for assim, a imensidão se construirá na alma, na pertencência. E assim pode-se mudar de país, morrer, casar com outro homem ou mulher e ser feliz e, no entanto, aquele amor estará ali para sempre, como uma realização. Mas é preciso ter oceanos na alma pra se chegar a esta dimensão...

PS: A Meraluz escreve bem sobre isso. Posta algo aí preguiça...




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