Para o bem e para o mal este será um ano inesquecível. Ficaram algumas coisas
As mortais e necessárias
- O reinicio da pós-graduação
- A coordenação do Curso de Medicina e sua implantação
As imortais e essenciais
- O quarto ano de circulação do nosso Caderno de Cultura, da Tribuna Feirense ( 168 edições hoje)
- A Presidência do Clube do Vinho até abril de 2006 ( pense num cargo que é tudo de bom)
- Voltar a escrever com fartura, depois de 4 anos escassos ( e tudo já teria valido a pena)
- Encontrar, amar, mudar por ela, ter, perder, ser amado, retomar, nos meus textos, a " moça do lado do pôr do sol"
"Os deuses quando querem nos castigar atendem os nossos sonhos" - Oscar Wilde
E, ontem, num sonho, descobri que o mundo inteiro e a perfeição de uma vida, cabe em dois olhares que choram juntos e dizem te amo, como quem chega e quem parte. E, que, estranhamente, a primeira vez que a boca dela disse as palavras de sagração, era também uma despedida. E, assim, sobre a memória do inesquecível, iniciamos o infinito tempo das distâncias...
Irma Amorim, uma sensível poeta, feirense, pegou um trecho de um destes textos abaixo, fez um poema e deu-me de presente. Há sempre um encanto aqui e ali, um acalanto, a tentar minimizar a dor de nossas perdas....
Parceria
Sob a chuva e
uma canção qualquer,
uma gota se apaixona pela flor
e se recusa a cair.
Mais tarde, eu seus
cabelos molhados
-cheiro de vertigem.
Minha letra ( que letra, que letra, do Chico) de hoje e do tempo que ainda vem...
Todo Sentimento Chico Buarque
Composição: Chico Buarque e C. Bastos
Preciso não dormir
Até se consumar
O tempo da gente
Preciso conduzir
Um tempo de te amar
Te amando devagar e urgentemente
Pretendo descobrir
No último momento
Um tempo que refaz o que desfez
Que recolhe todo sentimento
E bota no corpo uma outra vez
Prometo te querer
Até o amor cair
Doente, doente
Prefiro então partir
A tempo de poder
A gente se desvencilhar da gente
Depois de te perder
Te encontro com certeza
Talvez num tempo da delicadeza
Onde não diremos nada
Nada aconteceu
Apenas seguirei
Como encantado ao lado teu.
O homem das cavernas, ou dos condomínios fechados, sempre precisou de abrigo. Não só das feras que os rodeavam e, ainda, e cada vez mais, nos rodeiam, mas de seu próprio ser, apenas, supostamente, indevassável. Afinal, não nos constituímos pela força. Por ela apenas nos mascaramos.
Nós nos tecemos por nossas fraquezas e defeitos. É pelo domingo em que uma lágrima sorrateira e cálida engana seu olho e umedece seu horizonte que nos reafirmamos humanos. Pelas porteiras de palha e areia que se rompem quando amamos o amor derradeiro ou quando uma mulher se deixa vencer, numa batalha interna, imemorial e inesquecível, por uma paixão impossível, que sabemos ser alma, ainda, matéria divina e atávica. Não é pela glória do externo, os símbolos do progresso, que conferimos importância aos sentidos, mas por aquele instante de saudade, sob a chuva, numa canção qualquer do rádio, uma dança para fingir ciúmes, um abraço de despedida em que se esconde tanta dor e vontades que os braços nunca são longos o bastante para o outro abarcar, nem a memória curta o suficiente para apagar.
Nem é pelo que retemos de acertos, ou pela obediência ao Sermão da Montanha, que nos fazemos certezas. É pela exposição e limitações que vamos criando arestas, domesticando esperanças, alimentado as entranhas do tempo que nos devora, incansável. É, às vezes, o abraço de um filho, sonolento e preguiçoso de tomar banho a te desejar bom dia, ou sua filha pedindo que lhe conte uma história para dormir que nos mantém, sempre voltando à caverna ancestral.
É por isso que, de tudo que o homem cria e conquista, das guerras por nada e por razões, dos leitos de amores em que ele dorme e seduz, das extensões de suas terras e de suas vitórias nas batalhas reais e imaginárias, que nada é comparável ao retorno para casa, ao fim do dia. É lá, quebrando a lenha seca da pradaria e fazendo o fogo que aquecia e assava o javali do dia, ou cabelos molhados e cheiro de vertigem, pão e sopa, à mesa do jantar, que está a mulher que te espera.
Em verdade, se lutamos na rua as lutas vãs, é apenas pra que ela se orgulhe do caçador que já não somos, dos dinossauros que já não combatemos com clava e lança. Se tentamos fazer o mundo melhor, é apenas a velha esperança que, ao chegarmos, enlameados e sujos, ela nos abrace dizendo que nosso cheiro permaneceu todo dia nas suas vontades e que o tempo não é a armadilha que se imaginava. E que sim, ela entende que o planeta precisa ser salvo, antes de consertarmos a tomada do microondas.
Esperamos, rendidos, que, apesar de sermos Quixotes e não o São Jorge que golpeia e mata os dragões, ela diga que a fazemos ter um coração tão cheio de ternuras que ela já estava morrendo de pena daqueles animais e que nos prefere assim, cavalgando sonhos e palavras. E que seu amor se faz devoção de um homem só, quando, carne frágil e falível, adormecemos como quem escapa de um redemoinho, nos braços de milagres que só ela, e nenhuma outra mais, tem.
É quando ela entrelaça nossos dedos, nos dela, que acreditamos que os fantasmas dormem todos no passado, E, a cada vez em que ela, apaixonada, deixa a mão escorrer por seus cabelos ou peito como uma medição de posse, e a alma dela cia junto, no sono e no sonho, feito uma gota que se apaixona pela flor e se recusa a cair, todas as redenções e revoluções se tornam possíveis, todos os martírios desistem da dor, todas as flores se abrem feito primavera temporã, nos seus olhos. É por isso que é preciso saber e ter sorte, conspirar com os deuses para encontrá-la antes que seja tarde demais. Ela. Somente ela. A que te fará, todos os dias, do local mais longínquo, desejar voltar. Porque será ela, amor e fruto. A mulher que te espera.
Não escrevo com os dedos, são meus olhos que disfarçam, no papel, tua saudade. Não há dor. É só a lua que não veio, desistente, minguante, para iluminar as últimas flores do terreiro e ficou assim esse vazio sem jeito. É a casa quieta e silenciosa. Há, apenas, as lonjuras da noite, as esperanças feito o vôo das borboletas depois da chuva, no primeiro fim de semana de tua ida. Há apenas sonhos que ficaram velhos quando ainda brincavam de gude no jardim, feito crianças e ainda não sabem aonde ir. Nem cabem na mala de mudanças. Não há mágoas, e sim um mundo inteiro de imagens, de detalhes de vida e alma, todos tecidos na oficina diária de construir uma história de homem e mulher que fosse capaz de vencer o tempo. Há também a vergonha do homem que não fui, ou que fui, até chegar ao teu encontro, na tua demora de vir. E saber que podia agora contar todos os meus erros, sem temê-los, pois tu tinhas o milagre de me refazer. Meu Deus, como era bom, esse homem de paz e permanências que tu me destes, forjado no teu encanto. Tu sabes o homem que me fez, como tua obra, criação de teu ventre e de tua mão, tão inesquecivelmente entrelaçada na minha, naquela manhã de sol. Ah esse cálice sagrado e profano do amor que bebemos. E nossos corpos enfurecidos feitos famintos na arena e adormecidos como deuses enfeitiçados.
Eu sei e você sabe que a melhor de você virá comigo, permanecerá em mim, ainda que a outra realize antigos sonhos e inaugural, leve e feliz continue a viver. Porque sou eu que te construo, te levo para voar no tapete mágico, te revelo, porque te olho primeiro como a razão de todas as coisas. Porque te pressinto, a mulher inteira que será. Ficamos sem a arrumação da casa, os filmes para assistir, os cavalos para andarmos no meio do capim.
Mas sei, também, que você tem que ir. E que, breve, serei uma memória distante e sem sentido no teu jovem coração. Sei que não devo mais escrever sobre você. Mas é que é noite. Eu não sei onde você está. E meus olhos precisam de algum disfarce...
"César...é este seu nome não ? Venho confessar-te um pecado. Há tempos visito seu blog, e me deleito com seus textos. Suas divagações me transportam a um lugar maior, sublime e superior. E por covardia, ou talvez consciência da minha incapacidade, me omito de postar um comentário. Hoje, me senti mais valente e ousada. Só queria te dizer : muito obrigada!!! Você renova minha energia, me faz suspirar, sonhar, ainda que suas palavras batam de frente com minhas carências. Mas acima de tudo, valida minha crença num ser humano melhor e mais evoluido. Mais me sinto impotente. Um beijo doce e terno pelo bem que me fazes".
Anete
Anete, postei o teu comentário porque não sei o que dizer. Talvez seja porque vocês saibam que tenho escrito com o peito totalmente aberto ao longo destes últimos e longos meses. Tenho recebido tantas coisas que tocam meu coração, aqui neste espaço, de forma tão intensa que, às vezes, não sei como responder. A reprodução dos meus textos, a ilustração de frases, enfim, um mundo inteiro que voces me dão. E, na maioria absoluta, através de uma relação silenciosa, uma parceria de quem vem aqui e sequer conheço. Nestes dias tão difícieis em que ando só posso agradecer por tamanho cuidado e carinho comigo. Obrigado, obrigado, obrigado...
Acho que a decisão estava além de sua própria vontade. Confio no seu coração e na chuva das amendoeiras. Entre a perdição e a salvação, ou vice-versa, ela escolheu a salvação. Ou vice-versa. Eu entendo e a faria, agora, fazer o mesmo.O mundo não pertence aos enlouquecidos de esperanças. Então, aos que me lêem, ou entrelêem, aviso que a moça do lado do pôr do sol, pediu para ir embora. A musa arredia. Tomara que não tenha levado também os versos e textos, tão seus. Linda e imaginária como sempre. Acho que não soube amar direito, amei do avesso ou tarde demais. Então restam eu e meu pequeno barco-blog, neste tão grande mar. Tão grande mar. Tamanho mar de esquecimento que uma vida inteira não vai dar...
As razões nos venceram, hoje. A caixa de Pandora foi aberta. E ainda que lutemos, sabemos que resta, no fundo, apenas a esperança. Mas temos uma certeza: é preciso que você parta. O medo em você cresce e te devora. Ele apenas retrata o encolhimento do amor, ou da sua forma de adorar. Quanto maior o que sentimos, maior fomos no que ousamos. E você foi ousada e corajosa. Mas a lógica é implacável e teu coração nunca se deu por inteiro, preso por fios de violino a tua memória de amor e ao teu futuro. Nunca conseguiu cuidar, com os gestos e rituais de quem namora, do inusitado que te dei. A posse única, a renúncia aos ventos de ocasião. Mas era amor demais pra tão pouca vida. A cada dia enxergava você fazendo, inexorável, o caminho de volta. Salvando-se. Encolhendo limites, escasseando os carinhos, reduzindo o tempo disponível, compartilhando menos o futuro e os sonhos, negando até palavras. Até esquivar-se do que te enfraquece, do que amolece suas pernas e atiça teu coração.
Desde o principio, em verdade, foi assim. Apenas não havia forças pra resistir. E éramos de uma imensidão inimaginável, no raro que tínhamos, se é possível de compreensão, isto. Finalmente, tua memória sendo refeita de um lado e tua lucidez do outro, resultaram em razão. Compreendo e sei a ilusão de amor, mal resolvida, que deixamos em nós. Mas, em verdade, exceto, por um breve, um breve instante, em que hesitei, eu mesmo não te deixaria ficar. Não me permitiria te roubar e te oferecer apenas meu reino de aldeia, meu mundo já tão vivido, tão cheio de erros, você que merece as inocências inaugurais.
Saiba, entretanto, que resgatei de mim, na tua permanência, o melhor, "à água na garrafa" e te dei este trigo e mel, não como estes dizeres de amor que, iludidos, por vezes repetimos sem a exata medida do querer, mas como escrito em sânscrito, em pergaminho raro, definitivo, puro, inocente, parido de novo. O amor como a pedra bruta, para ser lapidado pelos encantos de tua mão. Mas, entendo a tua necessidade.
Algumas coisas doem de forma lacerante. A perda da intimidade das confissões, a invenção de desculpas, talvez tenha sido as piores. Mas digo: sem literatura, sem poesia, sem ser texto ou verso. Um homem não se constitui homem de uma mulher, se não é capaz de doer até o infinito por ela. Amá-la na chegada e na saída, nos dois lados da estação. E, especialmente, na ausência. Assim será, pelo encanto irrepetível, pelo deslumbramento, pela felicidade parceira das bolas de gude. Milan Kundera diz que o amor acontece quando ela se inscreve nele como uma metáfora. E, de todas que minha alma criou, nenhuma foi tão bela e perfeita, como "a moça do lado do pôr do sol". Ainda temos uma eternidade a cumprir, juntos. A vida é o que nos resta. E tua felicidade, o que mais importa.
Um beijo, com amor, gratidão, tamanho e cuidado...