Eu sempre achei que a poesia podia vencer a realidade, mas eu não contava com as trapaças da sorte, nem com a força do real contra a utopia das ilusões...
Certa vez, Einstein, disse que Deus não jogava dados com o Universo, mas sabe que ando lá tendo minhas dúvidas? Para livrar a cara do Todo Poderoso aceitamos que ele não é responsável pela criatura, o que acho uma temeridade, pois sabendo da importância de sua criação, não deixar sequer um posto do Procon, um telefone pra recall, como se fosse uma dessas empresas de luz fechando os postos de atendimento, foi desatenção. Talvez tenha sido a ausência, à época, de uma associação de consumidores, já que os pedidos de reclamação, inclusive os conjugais, encaminhados aos seus prepostos aqui na terra, têm ficado sem uma resposta mais direta. Os muitos cristãos que me perdoem mas, responsabilidade, é fundamental.
Acho meio maniqueísta esse negócio de quando acertarmos ser obra do divino e quando errarmos ser burrada humana. Em verdade, duvido muito que esta criação tenha sido feita a partir do barro, ou vou achar que houve superfaturamento e entrega de matéria prima fora das especificações, provavelmente retirada de algum areal clandestino de Feira, ou de algum pântano, pra poder explicar certas figuras políticas e similares. Como os darwinistas acredito que o homem tenha evoluído do macaco, a genética prova que temos apenas 3% de diferença do DNA de um Chimpanzé, em muitos casos com vantagem para o babuino.
O que não consigo entender é, porque, com tanto bicho à disposição, Deus foi deixar que evoluíssemos logo do macaco. Um bicho portador da síndrome da irresistível vontade de aparecer, que afeta alguns dos mais ilustres feirenses e outros não tão ilustres, nem tão feirenses, que não resistem a um rococó, um salamaleque de araque, um enfeite de pavão adornando o rabo preso. Um animal que vive trepando em todo lugar, me veja certos homens e mulheres aí que não me deixam passar por mentiroso.
O macaco, sabemos, não é confiável. Pesquisas em laboratório tem mostrado que eles se vendem por qualquer banana o que, talvez, explique atavicamamente esse escândalo todo que está acontecendo com os políticos no zoológico de Brasília. Como se sabe, os macacos, quando condicionados por um estimulo, tendem a repeti-lo seguidamente, na expectativa de ganhar uma quinquilharia qualquer, um mensalão, um patrocínio multinacional para seus filhos, o que os torna ideologicamente fracos e mercadologicamente susceptíveis.
Verdade que algumas sub-espécies evoluíram das aves de rapina, que têm como alimento natural as verbas públicas, os cargos de gabinete, as licitações combinadas, acompanhadas de caviar e das melhores safras. Outras, evoluíram das aves e dos peixes como, por exemplo, as galinhas do sábado à noite, as periguetes do shopping, as piranhas que fazem misérias quando viajam mostrando mais uma vez que santinha de casa tem o pau oco e, em outros leitos, inclusive os cariocas e baianos, operam milagres horizontais. E verticais também, não vamos aqui ser sectários e limitantes.
Outro defeito de termos evoluído dos macacos é que a escolha da liderança é feita depois do pau comer solto na comunidade, num vale tudo de fazer inveja a briga interna de partido político, o que gera a necessidade de alianças espúrias e colunas curvadas que até hoje afetam nossos principais líderes partidários. Tivéssemos evoluído dos ursos pandas, por exemplo, todo este negócio de caixa dois, de pagamentos ilegais, como tem sido praxe no nosso modus operandi eleitoral, poderia ter sido evitado. É que a liderança entre estes animais é daquele que mijar mais alto. Imaginem só nossos despudorados candidatos em uma sessão secreta do Senado empunhando sua arma de guerra e disparando seus jatos urinários enquanto anunciavam o projeto de governo e agentes do Imetro a conferir altura e distância do mesmo. Tudo acompanhado pela população estática diante da Tv, com comentários de Galvão Bueno narrando toda trajetória do líquido vesical, naturalmente comparando ao do Fenômeno Ronaldinho, o Renato Machado sugerindo o vinho que melhor harmoniza com aquele momento solene e sem que, nenhum Dois Filhos de Francisco, aparecessem em porra alguma de lugar, nem em foto de cartaz jogado na rua. Ah meus caros cidadãos. Nós já teríamos entrado no primeiro mundo, nos anais da ONU e penetrado no circulo íntimo do poder mundial. Mas, enfim, se este foi o destino que nos foi escolhido, só nos resta levar a banana que todos os presidentes tem distribuído fartamente a população, cada um a seu próprio gosto.
Sim, já xinguei os deuses, blasfemei contra seus desígnios e aticei sua ira, atirando-lhe as injustiças de minhas condenações. Já fiz promessa de devoto, anunciei aos quatros cantos dos meus silêncios, minha partida. E, no entanto, retorno aos teus feitiços, todas as segundas-feiras. Já calejei as mãos de cultivar palavras de amor, os calos de tua forma em minhas palmas, de semear tempestades no que deveria ser ventos de calma, já calejei o corpo de conjugar ausências e faltas, esperas e desencontros, já calejei a memória das dores dos teus movimentos que me exilam, já fiz menor o imenso que era teu, por teu silêncio, por tuas tábuas de salvação, que eu reconheço justas, mas que tu carregas inseparável, por instantes, como tuas tábuas de lei.
Mas, te confesso, oro por ti, quase como se fosse um homem de fé, um apostolo pregando aos incrédulos, que os deuses te protejam de me amar, que te proteja da miséria e glória das entregas em abandono, das que ocupam uma vida inteira, sem retorno ou chance, que te proteja deste amor único e irrepetível que tu causa em mim, pois sei das dores, dos riscos e das incertezas de seres minha, das imensidões que dou e exigo. Pois, embora saiba que meus dedos tão duros- da lavoura arcaica que tem sido me construir-, ainda guardam uma última delicadeza, a última delicadeza do meu coração, para tocar tua alma de sonhos e encantos, não sei, tanto que nos demoramos em chegar um no outro, se temos o tempo das vivências, se sou, eu que me movimento com tanta dificuldade neste mundo de mortal, de coisas terrenas, tua melhor escolha.
E, talvez, te roubar do teu destino, seguro e confiável, agora que já sou o cavaleiro Quixote, sem escudeiro, a enfrentar o tempo- meus moinhos de vento- seja insano. Eu oro pra que não me ames assim e torno a orar, secretamente, com mais fé ainda, para que os deuses me perdoem, e minha reza não seja atendida...
Não havia sinais descritos nos céus, ou Armagedon, nenhum tapete vermelho estendido para teus passos. Não havia portas abertas no teu e no meu exílio. Quando começastes a andar em minha direção nem sabíamos que a linha do destino daria no coração. Ou que o sol dormiria todos os dias nos teus olhos de festa. E que dançariamos a mesma música quando eles descansassem sobre mim, lindos e doces, marejados de vontades e encantados de infância e promessas.
Quando a chuva, nas amendoeiras, encobriu a respiração de tua boca sobre a minha e tua alma se dispôs a envelhecer de mãos dadas com a minha, entre fogueiras, poemas, bambuzais, a natureza perdeu sua mansidão ao lento percorrer de teus caminhos. E foi sobre a rotação desfeita da terra ao teu sono nos meus braços que sonhamos ser possível, aos que amam, serem felizes. E fizemos da ilusão nossa sopa cotidiana, da saudade a roupa que protege nossa nudez dos que não enxergam inocências, dos sonhos a esperança que a vida e os corações possam ser reinventados para o recomeço definitivo. E quando soubemos que as memórias tem seu poder de acalanto, que seus uivos se ouvem à distância, e doemos por elas, tecemos com as mãos a nossa rede de pescaria, capaz de nos proteger da violência das cobranças.
Mas, porque o navio negreiro dos impedimentos ronda nosso mesmo mar, cuidemos do coração do outro como se fosse o último pedido de nossa própria vida, com a fantasia dos filhos que brincam seus jogos de criança sem duvidar por um único instante, um único sequer, de sua própria imaginação. Tenhamos a reverência dos que celebram suas rezas tendo como primeira oração de sua boca a salvação do seu amado e a imensidão majestosa dos que não conseguem conceber a vida além da existência de um encontro. Acreditemos no milagre que nos foi ofertado pelos deuses travessos e nos façamos dignos de suas exigências. Cuidemos, com a delicadeza dos artesãos e a sabedoria das sacerdotisas, do meu amor de homem que, pela primeira vez, se desfaz de todas as outras vontades pela vontade tua e por teu amor de mulher que abandona todas as tuas verdades pela verdade minha.
E, se assim fizermos, que, na saúde e na doença, na alegria e na tristeza, na separação e no retorno, no parto e na concepção, no sono e na vigília, no silêncio e na conversa, no conforto e nas dificuldades, nos receios e nas certezas, nos amemos como dois amados enlouquecidos e atentos, sendo fiéis e companheiros, amantes e cúmplices, sem que nunca ronde sobre nós qualquer dúvida de nossa infinitude, reencarnações por reencarnações, para todo sempre...
T. Lattrec
O texto que estava aqui foi editado, por falta de qualidade. Fica só o aproveitável. Acho que vai começar a fase da escassez produtiva. Perdoem-me leitores.
" Lutar com palavras", dizia Drummond, "é a luta mais vã, enquanto lutamos, mal rompe a manhã". Sei que me entrego a elas com devoção e tenho feito do meu coração o seu dicionário de significados. Não sei se é minha benção, ou maldição, mas não sei não ceder a elas. E assim elas me levam a lugares longe, longe, demais.