Um lugar de palavras no meio do nada

Quarta-feira, Setembro 28, 2005


[1:50 AM]

Palavras...

Como saberei o que tua boca não pronuncia? Os segredos que teu corpo me narra quando oscila entre a morte e a glória, teus meridianos como minha carta geografica, minha bússula de humano e a febre terçã que te olhar, linda e lua, linda e nua, lua e nua, causa nos meus desejos, nem a minha mão invasora a cobrir inteira o segredo de suas coxas a abrir-se lentamente, em espera e agonia, em convulsões e fomes, em alma e dor insaciada, nem o peso de homem de meu corpo sobre o teu riscando feito um carvão inapagável a sina da permanência, do irremovivel, os pudores de quem se move sem roupas por um templo sagrado, nem tua nuca ofertada em sacrificio de posse, os joelhos cedendo e dobrando-se em rendição de fêmea, nem as ameaças que violentam o ar de teus ouvidos feito uma lâmina de inscrições e sinais, feito faróis de perdição a anunciar aos segredos de tua memória uma rota de pertencência, sem tábuas de salvação, sem passagens de fuga, nem teus lábios que jamais beijei igual amordaçados em minha boca a domar minha dores de homem, nem teu sono que alucina e encanta, perdida em meus braços, feito uma criança que se acolhe e se abandona no seu refúgio, nem as saudades desvairadas do que não fomos podendo ser, do que não temos podendo ter, do que somos não podendo ser, do incompleto que há de povoar feito um vendaval cada caminho de separações e distâncias, cada ausência e apartamento, nada tem sentido enquanto tua boca não disser meu nome como um chamado, uma oração, uma escritura de capitania. E eu, então, saberei que uma vida inteira pode valer a pena...




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Terça-feira, Setembro 27, 2005


[12:32 PM]

Avesso

Tenho dias de sol e tristezas inexplicáveis. Como um revés. Súbitas. De uma dor sem razão. Como um canibal, sozinho em uma ilha. Vinda de uma percepção além da minha consciência. Como se houvesse a certeza de ter chegado tarde demais ao meu próprio encontro. A meu eu derradeiro. E o caminho tivesse sido longo demais, tão longo quanto pode ser um caminho de feitiços. Os erros muitos, as escolhas falhas. E, então, não pudesse salvar-me. Ou que salvar a mim mesmo, significasse exilar alguém de seu próprio destino. Como se, mesmo tendo, de tudo, o maior de todos, isso não fosse o bastante. E caminho horas, melancólico, por dentro de minhas ruas solitárias. Há, já, algumas folhas de outono. Sinto-as nos ossos. Persigo-me como se fosse um fugitivo culpado de guerras. Dos Templários. Das cruzadas. Dos Barbáros. Do Olimpo. E ressurjo sempre pelos olhos de promessas oceânicas com que ela me fita. Midas sem maldição. Ela que faz o avesso do avesso, lenda e mel, tudo que toca. Entregue e esquiva. Dada e fugidia. Procura e desistências. Dor e bálsamo. Água de bica e cicuta. Que balança entre o sonho e o real, como a única flor do abismo de meu coração. Escassa de confissões. Vasta de gestos. Uma mulher com sua memória e emoções inaugurais e a promessa de reinvertar-se. E eu oscilo entre o sol e a lua a me perder de amor...





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Segunda-feira, Setembro 26, 2005


[1:31 PM]

Da série mundo animal

Nos dias 23/24 após mais de 15h de longos debates filosoficos a pergunta símbolo acabou sendo a seguinte: muriçoca tem frio?




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Sexta-feira, Setembro 23, 2005


[8:59 AM]

( Cronica ampliada)

Setembro não é longe demais

Este ano tem sido duro demais com nossas melhores ilusões, vejam aí a revolta dos ventos e dos mares sinalizando que a gente não anda com o moral nada bem com os deuses do universo, nesta Sodoma e Gomorra globalizada que a gente está transformando a nave planetária. Motivos é que não faltam, até porque a gente continua se matando com a eficiência de sempre, seja com agrotóxicos e drogas nos alimentos, mísseis teleguiados ou, naqueles sem inserção digital e tecnológica, a pau e pedra que, se não é eficiente no coletivo, serve bem a propósitos individuais.
O fato é que o homem, no sentido de espécie, perdoem-me as queimadoras de sutiã se tomo homem como símbolo da categoria geral, cada vez mais é um selvagem sem princípios, apenas sob controle social, o qual é cada vez menos efetivo já que qualquer advogado é capaz de fazer gato e sapato da nossa peneira jurídica. Estão aí o pior da fauna da trambicagem nacional, dos que foram descobertos ou dos que se acobertam em mandatos e similares e que contam com a cumplicidade bovina de todos nós, para que não passemos por mentirosos. Quem pensa, entretanto, que vou escrever uma crônica desesperada sem os vinte poemas de amor, está tão enganado quanto qualquer eleitor deste país, pois o que quero falar é de um assunto totalmente supérfluo e, por isso mesmo, de extrema relevância.
Acontece que, eu sei e vocês devem sentir na alma, já é Setembro. E se anuncia para breve, apesar dos desenganos, a estação das flores. Evidente que isso não deve influir na bolsa e é até possível que o risco-Brasil, risco sempre sub-avaliado, eu acho, continue piorando lentamente, até porque tudo por aqui parece que só faz piorar, mas eu peço que a gente deixe, por um instante, nossa imoralidade nacional de lado e prestemos atenção as flores que vão surgindo. Verdade que há flores, no entanto, que desobedecem ao calendário, florescem em Abril e lançam seu perfume por uma vida inteira, mas estas são as encorpadas, as que carregam dentro de si alguma insensatez de amor. O certo é que o outono já está sendo varrido de nossos corações e, nas manhãs de minha cidade, a neblina não cobrirá mais o sono dos que se tardaram amando. Há, pressentimos todos, depois do longo desencanto, urgências de flores. Há extrema urgência de flores. Para que ela saiba que não é partir que angustia, mas não deixar prontos os anúncios da volta. Precisamos de flores pois Setembro sempre foi muito longe.
Então, deixemos de lado o luto da esperança e plantemos nas leiras dos olhos dela, os lírios, jasmins, açucenas e delicadas acácias que ainda nos restam. E rosas. As rosas vermelhas e os imprescindíveis girassóis amarelos pois novas chuvas virão. Assim as ruas com que ela nos inventa e a Getúlio Vargas irão florir seus flamboyants e a vida parecerá o vermelho do sol e de sua boca. Então, aproveito para avisar que Setembro não é longe demais e que, mais do que em qualquer tempo, é primavera e precisamos do coração da mulher amada para semear as únicas e últimas flores do nosso amor.





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Sexta-feira, Setembro 16, 2005


[12:23 PM]

Unicidade

Dos encontros e do outro sempre fica, mesmo, um pouco. De cada ensaio de encanto guardamos um segredo, um detalhe, para história, um gesto, um gosto, um hábito, uma palavra. Inevitável, as marcas, quando um homem e uma mulher viveram certas coisas no corpo e na alma, como parceiros. Em cada encontro, um sentido, uma tentativa. Eles parecem diferentes e, momentaneamente, plenos. Mas, o desfazer diário, costuma fazê-lo ruir, mostrar que não era tanto, nem tão forte, nem tão belo. Ou que faltou a sabedoria da manutenção. E a pele e a alma se esgarçam, ainda que a memória retenha o aprendido. Há, no entanto, um único, que toca o essencial, o inatingível, que ocupa todas as nossas esperanças e necessidades. Que, de tão inteiro, tão farto de coração, afasta as superstições e temores. Por exemplo, o treze vira magia incomparável e nas escadas escrevem sonhos. O risco , quando ele acontece, é que precisamos ter ainda em nós a capacidade de nos vestirmos de inocências, de não trazermos o peso das lembranças e do vivído. Aí, então, não importam as distâncias, os afastamentos, a latência, ou os atos. Um sempre irá carregar o outro como o sonho da alma perfeita, da liberdade indesejada. Por isso, eternamente, retornamos, às vezes, aos mesmos olhos..




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[12:14 PM]

Tempo

Estou num congresso em São Paulo vendo algumas coisas de meus filhos por isso a ausência. Assim que voltar retomamos a parceria...




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Sábado, Setembro 10, 2005


[10:45 PM]

A insustentável leveza do ser

Mesmo as nossas melhores ilusões e esperanças só se sustentam se alimentadas por algum grau de concretude.




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Quinta-feira, Setembro 08, 2005


[7:37 PM]

Inevitável...

É quase impossível não se contaminar, conter o asco com a politica. Embora haja exceções cada vez mais nos parece que a diferença é apenas entre os que foram descobertos e os que conseguiram disfarçar a mão na massa...




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Domingo, Setembro 04, 2005


[2:46 AM]

Setembro não é longe demais

Eu sei e vocês sentem na alma das estações que é Setembro. Há flores, no entanto, que desobedeçem o calendário, florescem em Abril e lançam seu perfume por uma vida inteira. As folhas do outono que forravam o chão, cedendo ao frio, são varridas. E nas manhãs de minha cidade e do meu coração a neblina não cobrirá mais o sono dos que se tardaram amando. Há, pressentimos todos, depois do longo outono, urgências de flores. Há extrema urgência de flores. Precisamos semeá-las em cada despedida tua, para que não esqueças, que não é partir que te leva, mas não deixar prontos os espaços da volta. Precisamos de flores pois Setembro sempre foi longe demais. Precisamos das leiras de teus olhos pra semear os lírios, jasmins, girassóis amarelos, açucenas e delicadas acácias, que sempre guardei. E rosas. As rosas vermelhas, as rosas negras, as rosas amantes. Precisamos de tuas mãos de jardineira, replantando os frutos das amendoeiras, pois novas chuvas virão. As ruas de minha rua, que tu inventa e andas, e a Getúlio Vargas de minha cidade, irão florir seus flamboyants e a vida parecerá o vermelho do sol e de teu tom. Agora, que em algum lugar do mundo tu dorme, exausta do dia e suas lutas, eu te escrevo, como se fosse minha primeira carta de signos e inocências, ainda que não saiba se me lerás por inteiro, para te avisar que Setembro não é longe demais e que, mais do que em qualquer tempo, é primavera em meu peito e preciso do teu coração para semear as únicas e últimas flores do meu amor.





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Sábado, Setembro 03, 2005


[1:49 AM]

Auto-engano

Deixe de ser ridículo e tolo com você mesmo, pelo amor de Deus... Você não merece que você se faça isso. Nem sempre as coisas são o que gostaríamos que fosse. Nas condições atuais não se pode negar o tamanho do que é evidente, ainda que não se reduza a imensidão da própria história. Ás vezes, toda pressa e irritação de uma sexta não é, convenhamos, medo de dirigir no escuro, mas é natural. Mas, deixemos os detalhes, daqui por diante. A vida e as opções são grandes demais para que fiquemos lutando com as pequenas imperfeições.




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Quinta-feira, Setembro 01, 2005


[5:30 PM]

Oferenda

Deveria ser a reza de teus olhos, oráculo de tuas escolhas, o céu de esperanças que crias em mim, quando te deitas ao meu lado e anuncia aos infames das ameaças, aos infernos das dúvidas, que sim, que és minha e que vais me tomar como teu, homem e amor.
Deveria ser tua árvore plantada as alegorias de riso do meu coração, quando tu atravessa meu rio e minha infância, sobre teu cavalo alado (mesmo que não obediente) e o teu tempo corre ao lado do meu, feito margens do mesmo destino, sem revés, ou fim. Deveria ser tua conquista derradeira esta tua mágica que desloca minha vida do eixo e corrige os desacertos, feito milagre de santo, prece de quem ora de joelhos, pois és senhora da fé e das renovações.
Deveria ser tua medida de destino, tua, a mesma minha, que te tenho como extenso da vida inteira, para todo sempre, para todo sempre. Amém. Deveria ser, tua imagem no espelho, tua última dúvida de fé, pois sabes que tua perfeição e beleza são o fim do estio, desenho definitivo de todas as minhas buscas e vontades. E que te tomo dentro de mim e me ilumino e que me tomo dentro de ti pela ambição de iluminá-la. E tu deveria saber que é tua a chave de todos os acessos e que a escolhi para a espera na porta de casa, para os excessos do pôr do sol, o pão do jantar, o leito e as leituras da velhice.
Deveria ser teu brinquedo de criança deixar-se adivinhar por mim, teu mistério de esfinge, deixar-se decifrar por mim, tua morte e ressurreição, deixar-se amar e amar por mim. Pois se não sabes, deverias pressentir, que é sobre tua vida e tua presença que teço a lonjura de minha linha do distante, é sobre o sonho de tua entrega desmedida que oscila a linha do coração e do meu destino, é sobre tua vastidão, e o correr de teus olhos de água pótavel, sobre teu amor -que tu sabe tecer tão imenso quando quer-, de ternuras e unicidade que faço renda, fio, linho e rede, sem como, quando e onde.
É de tua boca que espero ser ditas minhas palavras de salvação: "eu, escolhida quando era além de mim fazer escolhas, eu que me dei quando era além de mim poder me dar, eu que amo quando era além de mim poder amar, me ofereço, fêmea milenar, irremovível, tua alma e tua mulher..."





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