Certa vez li algo de Duda Mendonça em que ele dizia que o seu pai tinha sido seu mestre, herói e guru e que gostaria de ser para o seu filho o que o pai tinha sido para ele. E completou: " Não importa que a meta não seja ancalçável. O que importa é que ela exista. Que fique lá, balizando a vida. Que permaneça, como só os sonhos mais remotos e profundos são capazes de permanecer"
Agora eu era o herói
E o meu cavalo só falava inglês
A noiva do cowboy era você além das outras três
Eu enfrentava os batalhões, os alemães e seus canhões
Guardava o meu bodoque e ensaiava o rock para as matinês
Agora eu era o rei
Era o bedel e era também juiz
E pela minha lei a gente era obrigada a ser feliz
E você era a princesa que eu fiz coroar
E era tão linda de se admirar
Que andava nua pelo meu país
Não, não fuja não
Finja que agora eu era o seu brinquedo
Eu era o seu pião, o seu bicho preferido
Vem, me dê a mão, a gente agora já não tinha medo
No tempo da maldade acho que a gente nem tinha nascido
Agora era fatal que o faz-de-conta terminasse assim
Pra lá desse quintal era uma noite que não tem mais fim
Pois você sumiu no mundo sem me avisar
E agora eu era um louco a perguntar
O que é que a vida vai fazer de mim
Benditos os navegantes de antigamente que acreditavam que a terra acabava na linha do horizonte, de onde cairiam, mas que nunca deixaram de lançar seus frágeis barcos nesta direção, bendito os que pintaram segredos nas cavernas acreditando que um dia seriam lidos ainda que sequer soubessem se haveria amanhãs, benditos os catingueiros da aridez do sertão, tocados pelas sete adagas de anjo, que nunca se mudam de sua terra porque não hesitam, nunca duvidam que o tempo da chuva e dos ventos será alcançado. Benditos os que não deixam de semear suas roças, ano após ano, sem praguejar contra os deuses ou a sorte, sem deixar de preparar suas forças para fazer novamente, com mais cuidado e mais esperanças, as leiras do inverno que ainda vem. Bendito os que não tiram os céus dos olhos. Os que confiam. Os que acreditam na própria imensidão. Bendita as cartas de Maria do Alcoforado, bendito Shakespeare e seu soneto CXVI, Romeu e Julieta, Othelo e Desdemôna, bendito meu coração que envelheceu sem ceder ao outono. Maldito Shakespeare, maldito meu coração, que envelheceu, com a cobiça do impossível.
Agora que são outros os anéis de Saturno, que a lua não tem segredos e dragões, que domaram o sal do mar e tudo é substituível, como amar uma mulher se ela não acredita em eternidades? Que na vastidão de seu peito, não guarde a intensidade dos que amam desesperadamente e para sempre, dos que se inscrevem feito escrito antigo na pedra da caverna para ser lido em outras vidas e outros reencontros? Ou que acredita que o amor pode ser uma viagem longa e encantadora, mas com cais de ancoragem e retorno? As que duvidam que o amor maior de todos, não tem margem de contornos, nem rotas alternativas, nem tábuas de salvação. Como amar quem não se reconhece nas próprias escolhas, sem os disfarces do corpo e da alma? Como amar, hoje, as mulheres que admitem os finais e se conformam com esta possibilidade? Ah, maldito poeta que semeou ambições nas minhas vontades e este meu coração desmesurado que acredita na infinita permanência e sonha com a mulher de amor insensato...
Ontem a lua foi cheia. O céu parecia pequeno para tão farta lua e teus feitiços devem afetar, novamente, o meu dia. Assim, com a sincronia de um módulo espacial se acoplando no espaço, meu coração amanheceu marcando sua primeira batida ao ritmo do teu. Mas sei que no meu destino os trens não param nas estações e não alcanço distâncias maiores do que meu caminhar, a cavalo, nas remotas manhãs de chuvosos domingos. A enxurrada da chuva, neste longo inverno, não lava a memória da alma. Nem do passado. Ou seus ecos. Nem carrega meus receios e responsabilidades e as certezas do que há a ser feito. Eu sei. E, no entanto, não cedo... Mas sei que não escravizo o tempo, nem venço as três deusas que fiam a vida e seu tamanho, com sua tesoura. Hoje, por exemplo, queria umas palavras de flores e são outras, hélices, que saltam na minha boca. Martelo, com dolorosa insistência, as palavras. As forjo no fogo incandescente da mulher derradeira, na carne e sal da vida, que explode ao seu contato. De súbito, a vida inteira parece ter sido escrita a giz. E o novo alfabeto só parece possível de ser lido se escrito pela abundância de tua mão, tão doce, tão doce, de entrelaçar os dedos. No entanto, margeio e marco o calendário, não pelo excesso, mas pelo faltar. Preciso, como os cavalos-marinhos, que se defendem tomando a cor da folhagem submersa, mimetizar as cores de tua existência e de tuas esperanças.
Hoje a lua irá se repetir, inevitável, que é. Quando for noite a olharei e acharei que são teus os encantos. Meus olhos parecerão pouco para enxergar tanta fartura. Pediria os teus pra me ajudar a ver. Mas você não estará ao meu lado e eu perguntarei "a lua, da janela, onde você foi amar". Deixarei que parta de mim a lua desta noite. E retornarei para casa quando o peito estiver calado. Porque hoje é sábado, os casais funcionam regularmente, como diz o poeta, e meu coração parece tão pequeno para caber tão grande amor....
Amava-a na calma e na ambição de tecer os dias comuns. A história do mundo a ser contada, as vidas inteiras redesenhadas. A escolha dos quadros na sala e a cor inesperada de uma das paredes da casa imaginária. Quem sabe, aquele abóbora, de uma brincadeira antiga? O primeiro álbum de fotografias, começando por aquela onde ficou anotado que ela estava tomando posse da chuva e do vento. A música da primeira despedida no aeroporto e aquela outra, primeira, antes de uma viagem de teu fim de semana. Acender uma fogueira de São João, atravessar a rua de mãos dadas, sempre. O sonho das vagas na garagem. O pão doce na cesta do jantar. E, finalmente, aquele filme que não puderam ver. A pasta de dentes, na escova, anunciando a vida a dois, todas as manhãs. Saber a temperatura exata da água de teu banho. A imagem no chuveiro. A marca preferida de desodorante. E, quem sabe, ser levado todos os dias, no olhar, quando ela se for, até o retorno. Dizer bom dia, virando de lado e redescobrindo os mesmos encantos. Ler novas palavras, emoção inaugural, em comunhão. Leitor e leitura. Aprender um prato qualquer para aqueles domingos, à noite, com preguiça de sair. Ou ter a mão nos cabelos, a perna de um sobre a do outro, sem outras intenções que não afirmar que ali se dá um casal entrelaçado eternamente. Amava-a assim, na claridade do inacessível. E, no entanto, seu coração quase enlouquecia de esperanças...
Ontem foi reunião do Clube do Vinho, sobre a Pinot Noir. Mas nem é o vinho. È a vida, a vida, a vida que , depois dele, nos deixa bebados de euforia...
Não queria te apear das palavras. É na delicadeza de teu coração e nos teus olhos de lonjuras sem fim que elas germinam. Nem tecer rasuras no pergaminho de seda de nossa pele, ou perder o rumo dos girassóis que sempre se curvam na tua direção, nem guardar o amor - que quem guarda o que em si é do outro, perde-, na plataforma da estação, ou não dançar o baile de tuas pernas, feitas a formão de carpinteiro, tão lindas, tão lindas, abismo de perdição retidas na tua saia azul, céu de todas as ambições. Nem fazer-se exagero, oceano desabrido a invadir tuas resistências, nem fazer com que meu excesso fosse o mover do teu destino ou desejar. Queria, antes, deixá-la vir do seu próprio jardim de avessos, como migração irreversível e que cultivasse sua lavoura, a árdua lavoura do amor, com as tuas mesmas mãos, ternas, macias, com memórias e gestos - mas ainda capazes de erigir o maior de todos-, sem auxílios. Que, nos excessos de chuva, soubesse que será sempre, vida após vida, vida após vida, o mesmo vento, a mesma nossa música no bambuzal. E, nas secas das tardes sertanejas, os vincos, o raso, acolhessem novas esperanças. Mas, como afastar o minotauro dos receios a margear o labirinto e os incêndios das distâncias?
Então, para não ser vencido pelas sutis diferenças do tempo e das intenções, para não dobrar às maldições da vida mortal, ao nosso existir de homem e mulher, nem ao desencanto dos silêncios, meros temores, cancelas de palha e areia, é preciso domar o desembesto da paixão, colar o ouvido ao rumor de teus passos para andar no ritmo de tua vinda e deixar lançadas minhas tábuas, frágeis tábuas, de salvação...
Nem sempre chove nas amendoeiras e nem sempre o sol se põe do lado certo...Ontem foi um dia assim...mas, como diz o poeta João Cabral de Melo Neto, em verso que amo: " é preciso às vezes cultivar desertos como um pomar as avessas" ...
Que heresia terei cometido contra os deuses do universo? Que blasfêmia lancei aos ouvidos dos senhores do destino? Porque eu, tão pouco e tão grão, que me rendo, indefeso, à vida dançando seu baile imaginário na saia da mulher amada, e apenas desejei ocupar seu lugar quente, no lençol, quando ela levantasse pela manhã, de dentro de meus braços e desejos -fêmea e companheira-, que apenas quis que seu cheiro ocupasse todas as jardineiras do dia que começa e fosse o aroma que me adormecesse e reconstituísse, ao retornar exausto, das pelejas do dia, sofro tua ira?
Terei sido inconfidente de alguma conjuração ? Apenas porque cedi e entrelacei meus dedos nos teus à luz do dia e te ensinei que a palavra amor não mede dimensões, nem oferece alternativas? Ou porque ousei tocar teus mistérios femininos como se fosse a mais esperada de todas, e o sono não pudesse ter outro sentido senão me reencantar dos teus feitiços, diariamente? Porque confessei que te faria um filho, no teu corpo de algas e saveiros, sêmen e profecia, para que pudesse percorrer todas as léguas que te compõem e tu andasses prenhe de mim, do teu homem derradeiro e a terra ficasse povoada de ti e do teu destino? Porque deixei os exílios, asilados no meu escuro e me deitei ao teu sol incandescente? Ou porque entalho teu nome com fios de violino e aquarelas, no muro incolor, como remissão de todo o passado, agora que tua lua, cia, na ilha flutuante e sem cais de minhas esperanças?
Senão, porque esta oferenda da vida em metades e a oferta de salvação ao preço dos imortais? Porque me dá tão longas noites sem sono, os alertas que o corpo e os costumes são minados de memória e as provações da imaginação, quando sequer tolero as mínimas ausências. E me ofereces, tão tardiamente, as respostas de uma vida inteira. Porque me incensa e atiça com uma mão e me arranca e distancia o sonho com a outra? Porque cinde tuas mãos de mel e cicuta?
Então, me rendo aos teus desígnios e tua sabedoria. Não inventarei novas blasfêmias, não murmurarei heresias, mas te peço: acalma o meu peito. De homem antigo. Deixa apenas que flua em mim as delícias das possibilidades atendidas e tudo mais se faça apenas bolhas de sabão. E, assim, amor, tudo que pediria, era uma pétala de tua vida, para pousar, como quem respira entre a vida e seu final...
Uma das flores mais antigas do mundo o lírio sempre foi visto como símbolo da pureza, sendo encontrado em pinturas nas paredes dos palácios da Grécia Antiga, dedicado à Hera. Ora é tido como símbolo de inocência e virgindade, ora como símbolo de amores proibidos e procriação. Diz-se que, na alquimia, era usado para fabricar um perfume mágico, havendo a crença que ela ajudava a reconciliar os amantes. Segundo a mitologia a conselho de Minerva, Juno deu seu seio a Hércules, que havia sido abandonado no campo por Alcmene, sua mãe. O herói teria sugado o seio com tanta força, que fez o leite esguichar em grande quantidade. As gotas que se espalharam no céu formaram a Via Láctea e as que caíram na terra transformaram-se em lírios. Dizem que "seu perfume mistura mel e pimenta, algo acre adocicado, de fraco e forte, tal uma conserva afrodisíaca do Oriente e com os confeitos eróticos da Índia que canta os arrebatamentos do espiríto e dos sentidos".
Certa vez, num destes dias em que a porca parece querer torcer o rabo, uma namorada, me vendo diante da montanha de problemas, me disse - querendo me animar, ou confessando ter um juízo fraquinho-, que eu era seu super-héroi. Eu sempre desconfiei que ela não entendia nada de mim ou de revista em quadrinhos mas, de qualquer modo, foi carinhoso e bonitinho, como só as namoradas conseguem mentir delicadamente pra gente. Mas, nestes dias atuais, até que seria bom ser um pouquinho de verdade. Nem que desse só pra pular de uma escadinha de dois degraus...
* Voltar pra Academia, regularmente, depois que meu personal anti preguiça foi embora pra SP
* Voltar para o inglês
* Fazer a revisão bibliográfica do Mestrado
* Gravar 3 programas de Tv por semana ( com tempo pra banho e barba no meu barbeiro Bira- o ceguinho)
* Levar as calças com 2 meses no carro pra fazer bainha ( Ah meu Deus o que eu não seria capaz de fazer por uma mulher que desse um jeito na bainha de minhas calças)
* Escrever duas colunas para o jornal por semana ( com inspiração, humor, criatividade. E dentro do prazo de fechamento)
* Beber vinho mais regularmete . Ou, pelo menos, beber mais vinho. Ou pelo menos baixar o preço dos importados..
* Trucidar, matar, esfolar, queimar, embalsamar e qqquer outra forma de eliminação já descrita, a minha contadora, que me acabou no Imposto de Renda, por conta de umas meras distrações no momento de fechamento da mesma e que me transformou , por 6 meses, em um operário da Receita Federal do honesto governo Lula.
*Revisar um livro para publicação ( pelo menos vou ter uma heróina auxiliar nesta missão)
* Escrever uns dez protocolos da clinica que estão pendentes.
* Ler todos os artigos médicos antes das respectivas sessões de aula.
* Assistir os filmes que tenho comprado e que ainda não tive tempo
* Voltar a ouvir todos os meus CDs , que há muito não levantam a poeira da estante.
* Consertar a *&%*% da pia da cozinha que continua vazando, a cortina da biblioteca que quebrou, o som do bar que travou, os puxadores do guarda roupa de Lu que soltaram, a lampada do banheiro que meu filho já encheu de cobrar, as tomadas ... Na outra encarnaçao eu vou ser mulher e casar com um encanador-eletricista...
* Andar mais a cavalo no meio do mato..
*Ler meus livros, meus livros, pois a pilha de não lidos se aproxima perigosamente da pilha de lidos..
* Acho melhor eu parar ou não vai ter super herói que tope este emprego...
* E, principalmente, especialmente, fazer com que a musa da poesia se perpetue eternamente...
beijos mortais e bom fim de semana a todos. Ou até a volta em qquer sessão extraordinaria...
PS: e hoje é aniversário do meu amigo e filho aí da foto...