Um lugar de palavras no meio do nada

Terça-feira, Maio 31, 2005


[12:50 PM]

Pequeno acalanto para um grande amor...


Gustav Klint - O Beijo

Eu digo que é de tua permanência e entrega, de tua fala ancestral, de tua capacidade de refazer mistérios e modificar o rumo das rotas perdidas do mar, de tua alma tão semeada de lírios e alegorias que eu me teço homem. É dos teus horizontes, onde mansamente e indefeso o sol, encantado, vem se pôr todos os dias, que se faz o alcance de meus olhos. E, se, nos dias de chuva, meu mundo inteiro se encharca de tua falta, na tua vinda minhas alegrias de menino se enfeitam de alecrins e esperanças, dos nossos cheiros em comum, e, minhas ruas de pedra e, ás vezes, escuras, se enchem de velas, de lampiões e candeeiros, pra tornar segura a tua passagem. È de tua voz na difícil confidência dos sentidos, de tuas promessas de ser irremovível, de tua oferta de cuidados, de tua tatuagem de amor no meu destino, que ergo meu abrigo de sonhos e futuros como os antigos que faziam suas casas com o que parecia insustentável, de óleo de baleia, ostra moída e barro e que, no entanto, resistiam ao açoite dos tempos ruins.
Assim te proponho o amor dos que vivem distraídos, dos que conservam a ternura das crianças e a loucura dos sonhos, dos que ousam domar as ventanias e não temem o fogo das condenações, dos que não se negam e tomam como guia a lucidez dos insensatos e dos que navegam os ventos como uma oferenda dos deuses a suas velas escancaradas. Dos que tem sede, dos que sabem entrelaçar os dedos e as fomes, dos que rezam suas rezas profanas na comunhão das línguas, na margem delicada e enlouquecedora dos lábios entreabertos, dos que se perpetuam feito gozo definitivo e irrepetível do outro, dos que se deixam escorrer em magma, em sêmen, em conjuração de amores. Das bocas que confessam despudoradas a mais indecente das confissões: te amo, sem as regras do ofício - sabedores que são da própria imensidão-, sem o manto dos cardeais a proteger medos e temores. Assim que, teu homem, de colo e ventre, de rédeas e inesperados, de mares e terras, te proponho, enquanto te fazes esquiva e rede de pescador, que te tome derradeira e sarcedotisa, sem que nada mais, além dos céus, te esconda, sempiterna e nua.





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Sábado, Maio 28, 2005


[7:55 PM]

Batatinha com cerveja

Dizem que todo homem tem um preço, embora o mercado apresente larga flutuação de valores, estão aí nossos deputados, fechando pacotes coletivos, fazendo liquidações e preços promocionais. Quem leu o Poderoso Chefão, de Mário Puzzo, recorda cena em que um famoso diretor de cinema, criador de cavalos, recusava-se a contratar um ator em decadência, protegido da máfia, para ser o astro do filme, apesar dos milhões oferecidos. Quando ele chega em casa e puxa o lençol da cama encontra a cabeça de seu cavalo predileto e, sempre se disse, foi assim que a carreira de Frank Sinatra foi resgatada.
Certamente uma operação pente fino em nossa biografia vai encontrar, em algum momento, um vacilo, um ato falho na história, embora cada um escolha seus delitos de acordo com a necessidade. Eu mesmo vou contar a vocês um episódio, para não ficarem pensando que estou exigindo demais de nossos homens públicos, afinal, são quase todos, também, humanos.
Nos tempos do colegial a grana era mais curta que rédea de cavalo bravo e a sede etílica maior que a foz do São Francisco, o que causava uma incompatibilidade entre a oferta e a demanda. Por esta época fui a um baile de carnaval, no Clube Português, no tempo do bloco Os Internacionais. A noite foi passando e nada aparecia para encher meu caminhãozinho de areia. Madrugada, os amigos todos embeiçados, hormônios à beira do desespero, vejo uma mulher me olhando. Àquela altura do campeonato, mulher sózinha, era tão improvável de ser real quanto as contas dos partidos nas campanhas, mas estava acontecendo. Resolvi me aproximar e aí me deparei com a razão do fato. Pense numa mulher feia. Pensou? Dobre. Eu sei que nestes tempos politicamente corretos isto soa mal e o que vale mesmo é a riqueza interior embora, Vinicius, pedindo perdão, às muito, muito, feias, tenha dito que beleza era fundamental. Mas àquela hora, no anonimato, o carnaval no zero a zero e eu arruinado pra ter um a um, resolvi encarar o bicho, digo metaforicamente, de frente. E lá fui eu, jurando que daria um nome falso e no dia seguinte estaria mais escondido que nossas divisas em Cayman e que tudo aquilo era apenas pela manutenção da honra, na reunião da turma no dia seguinte, quando a plástica narrativa a tornaria muito mais bonita.
Pois não é que ela trabalhava e dividia apartamento, com uma amiga, que viajava todo fim de semana? Aí, instalado no que me parecia uma mansão, naqueles tempos bicudos, ela me franqueou a geladeira, entupida de cerveja e foi pra cozinha fazer batatinha frita que, àquela hora e depois do longo, bem, não tão longo, sacrifício, me pareceu um alimento dos deuses. Pra resumir, confesso que renunciei a idéia de desaparecimento súbito e levei uns meses freqüentando regularmente a dita alcova, no sábado à noite, me abastecendo até o rim flutuar, de cerveja e batata. Chegava às oito, matava a fome e por volta das onze, um colega, que tinha carro, me gritava na portaria. Alegava ser minha carona e sumia no mundo ainda com umas latinhas na mão para a turma.
Não quero ser palmatória do mundo e julgar ninguém, mas se eu, que me tenho até em boa conta, fui capaz de fazer isto por batatinha e cerveja, o que estes homens da administração governamental não são capazes de fazer diante da sopa de milhões de dólares? Melhor nem pensar ...





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Quinta-feira, Maio 26, 2005


[9:57 PM]

È preciso manter alguma leveza ao sair...




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Segunda-feira, Maio 23, 2005


[2:53 PM]

Sensações

A distância não é um universo físico. Ela tem a direção de teus olhos e o rumor de teus passos. Quando te moves para fora de ti mesmo, feito renúncia de sonhos, me torno escasso. Quando és arca de palavras, leira de cultivo de dias de sol e imagem nua e terna no espelho, deixas nas palmas de minhas mãos, extensões de léguas. No círculo de fogo de tua boca deixo arder todas as pontes de salvação, os fios que guiam os labirintos, as senhas de acesso à lucidez dos que não amam. E, ainda que não possa plantar destinos nos desencantos de tua memória, deixo que minha mão tome a tua, os dedos enfeitiçados pelos teus, para a travessia da rua, onde tudo se faz perfeito, à luz da manhã. O céu desenha algarismos de nuvens, o mar veste o verde de tua novidade e lança os corais na ponte do ancoradouro, deixando sal e marca, irremovíveis. Quando o destino e as paixões lançam seus anzóis e, docemente, teu coração encosta no meu, os braços não mais abarcam a vida que se inaugura entre eles... E, no entanto, ainda ecoa no chão de pedra, o leve rumor de tua ida...





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Quinta-feira, Maio 19, 2005


[9:50 PM]

Destino


O cheiro dela havia se modificado, seus gestos eram todos passos de um ritual de encantamento e ela se movia, destino irreversível, arrebatadora , em sua direção:
- como você consegue tanta coisa de mim?
E sua delicadeza de pergaminho o afetava, como os pólos afetam as bússolas, a temperatura das correntes os destinos dos peixes, o sol do norte à migração dos pássaros. Ela não trazia as dores de quem cruzou labirintos, mas a chance derradeira de uma vida inteira por fazer, nem os medos dos desafios, mas apenas o receio de que a eternidade não fosse o bastante para seus desejos de amor, nem a angústia dos cansados das ilusões, mas a fé definitiva e a certeza de que a vida é uma possibilidade a ser tentada:
-eu deixaria você fazer um filho em mim- ela diz na sua comunhão.
Não tinha fomes. Comia pão e palavras. E ria um riso de anunciação, como o Gênesis. Não era uma mulher que narrava lendas. Ela as tornava possíveis. Ele a recebeu, como se sempre a tivesse esperado e nenhum tempo fosse bastante para recuperar o que ficou perdido, com a ânsia e urgência de encurtar as diferenças e vencer o monstro abstrato das impossibilidades. Lamentou seus desperdícios, mas sabia que ela arava seus guardados de perdas e, por algum mistério único, fazia a vida migrar em sua direção deixando retornar aos olhos a dança necessária e doce da esperança.
-eu cuido de você minha vida inteira, ela promete
Ele apenas fecha os olhos e vira eterno enquanto o corpo dela começa a descer sobre o seu...





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Quarta-feira, Maio 18, 2005


[11:03 AM]

Sacrificios

Ah meus amigos. A vida nos impõe sacrificios e quando somos chamados não há como fugir destas obrigações. Não podemos deixar de arcar com nossas responsabilidades. Vejam que, há 3 anos, eu e um amigo, dono de um restaurante chamado Tomatte Secco, fundamos um Clube do Vinho. E, na última reunião, diante da necessidade de ampliarmos as atividades eu fui eleito presidente do clube, ainda que contra minha vontade. Mas, ciente do tamanho da missão que me espera, fui obrigado a aceitar. Que Baco me ajude, ou pelo menos reduza o preço dos chilenos...




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Terça-feira, Maio 17, 2005


[6:46 PM]

Mudança


Dessosso o tempo e as dores
E lanço suas folhas ao esquecimento.
Não deve o homem trazer,
amarrado em fios de sisal e sombras,
mais que seus demônios.

Nem confiar a própria sorte,
à foice cega da memória.







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[10:03 AM]

Blog sem comentário dos visitantes não estimule nenhum autor. Não basta ser visita tem que participar...




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Domingo, Maio 15, 2005


[11:00 AM]

Louca por um instante ( quase um conto)

Em algum lugar, talvez, você escute a música. Talvez não. Talvez Deus tenha deixado escapar uma alternativa.Talvez você esteja apenas ao sol e o sol nos faz urgentes e imediatos, e, então, tudo mude. "As vezes pareçe que estou sonhando. Somos lindos juntos", você recorda a confissão. Talvez, entre cativa e angustiada, quando o sol, satisfeito ainda que não saciado, de ficar olhando tua nudez, na areia, for se guardando, voce se lembre das conversas intermináveis, de mãos dadas, da história do mundo pra ser contada, do jogo de gude que não terminou, das promessas da chuva. Talvez seu coração dispare outra vez, talvez voce dê um sorriso envergonhado e o cabelo te esconda, talvez apenas você dê um sorriso...e o licor do nosso lirismo mágico e bobo te embebede de amor. Talvez você se arrependa do que ainda não disse, " eu gosto mais do que digo", do que não viveu '"há sempre o que eu quero e não consigo", do que se guardou " e se for o maior de todos?". Ou apenas, simples, se repita: " eu não sei dizer as saudades com que te sinto" . Talvez ache que o vento mudou, que há um aroma de flores, que havia um recado e que, por um instante, ele parecia deslizar apenas sobre a delicadeza de seu rosto, como alguém conhecido dizendo que os dias e os silêncios, às vezes, são insuportavelmente longos. Ou, talvez, você apenas balançe a cabeça, achando que foi tudo impressão, louca por um instante, e vá ver quem está lhe chamando...




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Sábado, Maio 14, 2005


[9:50 PM]

Razão

Deus não deixou alternativas, foi o que ela lhe disse...




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[9:49 PM]

O tempo passa e a gente se aproxima cada vez mais do real sentido da vida. Não é que só agora me dei conta que não sei fazer bola de chiclete e assobiar com dois dedos. Como ainda estou vivo?

PS: tive que apresentar um projeto no mestrado e fiquei sem tempo. Perdão aos raros leitores. Tentarei manter o blog mais atualizado e fazer uma sequência destes textos, como uma história.





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Quarta-feira, Maio 11, 2005


[11:58 AM]

A vida existe. Eu não preciso ver. Te adivinho...




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Segunda-feira, Maio 09, 2005


[6:56 PM]

Noticias reais

O Curso de Medicina da Universidade Estadual de Feira de Santana-UEFS obteve a melhor nota do Norte e Nordeste e a sexta do país para alunos ingressantes, na avaliação de conteúdo especifico, no ENAD. Um resultado promissor para uma universidade estadual e que tem um curso implantado há dois anos e com um projeto pedagócio inovador que utiliza a Aprendizagem Baseada em Problemas.




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Sábado, Maio 07, 2005


[9:20 PM]

O maior de todos

-"Navegar é preciso"
Assim disse Pompeu a seus homens para que se lançassem ao mar e levassem os alimentos que Roma esperava. Ele queria que seus navegadores de sol e estrelas, de mapas imprecisos, deixassem seus amores de cais, seus barris de runs, e enfrentassem, com temerosos barcos de madeira e velas, a maior de todas as travessias, vencendo as lendas que corriam de boca em boca e anunciavam monstros mitológicos, o sal, a sede, a solidão, o suor, o açoite das ventanias e dos medos. Sabia que todos atenderiam ao apelo, pois era de seus destinos navegarem, e partiriam mesmo nas rotas sem volta, pois não há como negar os chamados dos encontros definitivos. E lançariam suas Naus de Insensatos, navegantes do impossível e se cobririam de céus e cheiros, e tomariam o desafio com seus sextantes, as Três Marias, a Cruzeiro do Sul, suas guias lunares, suas ambições de domar oceanos.
Eu sei que navegar é preciso. Não há retornos na alma e nem cais no fundo do peito. Desde sempre fomos este mar a espera que alguém decifrasse nossos labirintos, com suas lendas. Deixaremos a terra firme e nos lançaremos com nossos barcos de giz. E nos guiaremos por novas constelações. A constelação de minha filha quando dorme, a constelação Lu, a mais bela de todas, a constelação dos olhos encantados, ou da moça do lado do pôr do sol, a constelação das amendoeiras, dos cajueiros, das chuvas no fim da tarde, a constelação das palavras de confissão nas noites sem sono.
Assim, aprenderemos, sabedores das forças do destino, a domar as incertezas e feito andarilhos beberemos do céu e do sol para satisfazer a sede ancestral. E, satisfeitos, ainda que não saciados, reconheceremos a imensidão do que se anuncia pela boca dos deuses travessos: o maior de todos.





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Segunda-feira, Maio 02, 2005


[5:17 PM]

À moça do lado do pôr-do-sol

Aprendemos, aos poucos, como quem tateia o desconhecido, ou corre a bateia no veio do rio, buscando o escasso, que são de menos as certezas. E que olhar o outro, não é traçar sob os medos, nem sobre o escutado, os assombros e receios. È, antes, confiscar, com a melodia dos olhos encantados, o passado de incertezas, as intempéries das mudanças, deixando retido na bagagem do tempo os temores de isopor e abrir-se inteira, nua, desfeita de mantos e regras e sagrar-se ¿ em rompante, grito, amor, libertação-, de seu homem. É tomá-lo dentro de si e iluminar-se. E iluminá-lo. Devota e intensa. E, sacerdotisa, lhe cabe acender os faróis, enfeitar a pele de orquídeas, cantar os cantos de anunciação e margear de velas, a arder em chamas diárias, "seu longo caminho". Assim iremos nos tornar cais, quando as naus dos desafios forem lançadas; templo quando for preciso abrigo; acolhimento quando a solidão for uma ameaça; alívio quando os corpos tiverem sede de amor, chão quando faltar sob os pés; céu, quando os horizontes estiverem perigosamente próximos. E, finalmente, quando tivermos ousado tomar o destino nas próprias mãos e vencermos as impossibilidades, quando cruzarmos o ocidente e oriente dançando juntos o baile imaginário, alucinados de amor, e quando as salivas de nossas bocas forem nossas únicas vestes, eu saberei que tu és, irremovível, a moça do lado do pôr do sol...






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