Um lugar de palavras no meio do nada

Quinta-feira, Março 31, 2005


[9:01 PM]

Profano

E sobre tu, vou erigir meu templo. Sobre tua verdade e teu obsceno. Sobre teus pecados, tuas faltas, tuas falhas de humano. E celebrarei os tormentos da obra, tocando o que havia se tornado inacessível. Mas não terei oferendas, nem sala de agradecimentos por lugares alcançados. Porque construirei sobre a pedra, sobre o raso, sobre o sertão com sua pele seca e vincada das lutas da resistência . Porque aqui o mistério de multiplicação é profano e ser e ter a palavra é uma condenação. Porque a vida não é justa e dói. Porque sei. Porque já vi as noites hélice, as noites sujas, as noites perdas. Porque carrego meu mundo nos ombros e não aprendi a rota dos deuses. Assim erguerei o templo do escasso. Sobre tua pedra. Fértil.




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Segunda-feira, Março 28, 2005


[4:18 PM]

CERIMÔNIAS


Ela havia guardado seu amor de pérolas e lírios como um segredo de pergaminho.
Ao longo dos anos, ele margeara o abismo daquela posse, construindo distâncias e cerimônias de adeus. E se mantivera a salvo dos destemperos, dos ritos, do avassalador domínio daquele amor impossível. Silenciara todas as vozes e construíra suas tábuas de salvação, suas árduas tábuas da lei, com a tenacidade dos náufragos. Escolhera, de escolha própria, as revoluções internas, a inquietude dos sonhos, o desespero das mínimas satisfações, a sinalizar avanços e ceder extensões. E, durante séculos, manteve-se a salvo. Até que, uma única vez, por uma única vez, a lua vestiu-a no espelho. Seus joelhos dobraram-se, enfraquecidos, e ele tocou, com sua boca de indecências e incêndios, os seus lábios. E todas as certezas se fizeram de lã, todas as defesas se fizeram veredas. E ela, sabendo que nunca mais poderia atirar a primeira pedra, ofereceu-se toda, fêmea milenar, ao seu amor de perdição.






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Sexta-feira, Março 25, 2005


[7:31 PM]

Santo

Não tenho dias santos. Desconheço os hiatos do calendário. Não fiz escolhas com prazo eleito. A vida e as ausências, ressoam com seu andamento próprio. Tenho prazer nos dias destinado ao sagrado e as chagas não se atemorizam nos dias úteis. Existo, talvez. Nomeio o tempo e seus significados, pelo faltar.




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Segunda-feira, Março 21, 2005


[7:59 AM]

Declaração

Darei amor verdadeiro as prostitutas que cobram por sua hora de mentiras,
amarei imortalmente as interesseiras e as que mentem da forma mais sincera,
me abandonarei nos braços das mulheres fáceis e daquelas sem memória no dia seguinte
e permitirei que minha alma seja irremediavelmente tomada por aquelas a quem desprezo,
escreverei os mais intensos versos de paixão às que fizerem do meu sexo, a sua repulsa,
guardarei entre os guardados de uma vida toda a infame que me roubar a fé definitivamente
e o linho de meu coração, para que, assim, me impeçam de continuar a ser teu ...





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Quarta-feira, Março 16, 2005


[8:40 AM]

Versões

Eu não quero viver-quero amar primeiro, e viver incidentalmente. - Zelda Fitzgerald em Zelda

Não me ameace com o amor , baby
Vamos só caminhando na chuva - Billie Holiday

Mas a melhor de todas deu-se no primeiro capitulo de América( vi por acaso, claro) em que a Daniela Escobar, que eu adoro, mostra um belo par de brincos que ganhou do marido que passou duas noites fora de casa:
- ele tem duas coisas fundamentais em um marido: sentimento de culpa e uma conta bancária recheada...




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Segunda-feira, Março 14, 2005


[2:31 PM]

e sempre há esta coisa mal feita, incompleta, que inquieta, incomoda, com mais distancia entre intenção e gesto do que gostaríamos. E sempre fica esta ausência, esse não-sei-o-que que não nos deixa respirar as três da tarde...




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Terça-feira, Março 08, 2005


[4:25 PM]

Elas...



A elas ainda que tardio...


As mulheres movem os deuses, os homens e o universo. E, freqüentemente, até outra. Até porque nada que se mova pode tanto nos gestos mais avessos. Se ninguém resiste ao seu contar-se - circes na sua ilha de feiticeiras-, nem ao repetir infinito de uma vontade sua, menos ainda podemos quando elas se fecham em silêncio e segredos e fazem evaporar-se todas as certezas e ilações. Nos rendemos quando se entregam de entrega inteira, templo, corpo, desejo, devoção, indecências, e quando se negam, como se nos lançassem uma maldição que nos condena a incompletude.
Nada, nada, é tão irreversível, irremovível, quanto uma mulher quando desiste, ou tão voraz, rompante, deságüe, cheia de temporal, quando chega - olhos e alma de cobiça-, e transforma sua volúpia numa força avassaladora de conquista, como um exército invencível, de longas batalhas, que vem desarrumando seu passado, sua cômoda e seus limites de ocidente e oriente.
E nada dói como uma mulher perdida antes do tempo, menos para outro, do que para si próprio, nem nada regenera nossas feridas de forma tão completa quanto o seu amor, como se só ela fosse capaz do milagre da cura. Nada mais, vivo, se reconstrói como se fosse uma fênix mitológica a recomeçar mil vezes mil, e sua pele fosse folhas secas que apenas cumprem seu destino de outono para dar lugar a um novo e inaugural mistério de ressurreição.
Ninguém suporta as dores e os martírios, nem se lança aos vendavais- refém de incêndios que é seu coração-, ou desiste de tanto, quanto uma mulher, quando perde o interesse. Mas nada é tão ameaçador, implacável, ou letal, quanto ela, se tomada de ódio, volátil e impulsiva que é sua emoção.
Ninguém fala de forma tão clara o que não quer e tão cifadramente o que deseja, com tantas palavras, do que essa mulher que exige adivinhas e surpresas, promessas e rendições, romance e realidade. Céu e areia.
E delas, somente delas, depende nosso perder-se e nossa salvação...






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Sábado, Março 05, 2005


[8:04 PM]

Razão

Não escrevo para o narciso que me habita mas sim para manter longe os demônios que me rodeiam. E que, frequentemente, me vencem...




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Quinta-feira, Março 03, 2005


[8:31 PM]

Aventura

Ela me conta sua aventura. Uma amizade antiga. Até que um dia, à beira da piscina, percebeu seus olhos de desejo. Ela, mulher experiente, achava que nada havia a ser descoberto.
- Engano. Diz, maliciosa. Sempre tem uma coisinha a aprender...
Achava-o um gato. Média idade. Não gostava de meninos. Era mais velho. Seu antigo professor. Dançava maravilhosamente. New York, New York. Era contra tudo que pensava e ele era mulherengo, mas não resistiu...
Esperou um mês pela semana do encontro.
-Eram três por noite, diz. As de minha vida. E mais que fosse, suspira...
Apaixonou-se. Guardou a calcinha preta, suja de ambos. Ele lhe dera de presente. Ela usou na última noite que dançaram. Mas rasgou as cartas que recebeu. Era casado. Resistiu. Nove meses depois, usou a calcinha. Uma única vez. Jogou fora. Não esqueceu. Mas soube que tinha sobrevivido.




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