Um lugar de palavras no meio do nada

Segunda-feira, Fevereiro 28, 2005


[8:23 AM]

Crônica Dominical
A um passo da história

Tem muita gente preconceituosa e pessimista neste país. Gente que anda pelas redações e tertúlias falando mal do governo, dizendo que Lula e seu time são um bando de pernas de pau, que não sabem fazer uma firula, um rabo de vaca, uma pedalada. Deveriam prestar mais atenção às decisões governamentais, pois desde que o Tio Sam andou querendo conhecer a nossa batucada, nenhum outro produto nacional teve o destino alterado por uma canetada presidencial, como aconteceu agora. Uma simples canetada, lhes digo.
Quando algum brazilianista dedicar-se a escrever a biografia do presidente e de seus companheiros e a oscilação política de suas convicções, certamente que um capítulo especial e saboroso será dedicado não às intrigas de suas intimidades com a aguardente nacional, o que, aliás, é de todo louvável. Vejam que já tivemos presidentes que preferiam os legítimos escoceses e todos achavam de bom gosto, mostrando que isto é preconceito dos mais destilados, de quem nunca chupou uma cana ou mamou um lambedor daqueles que matou o guarda. Mas como eu ia dizendo, antes de ser desviado pelo cheiro da maldita, o que vai passar à história, como marco, será uma decisão recentemente adotada pelo presidente, e que eu conto a vocês logo mais adiante, pra fazer um pouco de suspense.
O Brasil que com sua fartura de mulheres nuas tem mais é que viver deitado eternamente nestes berços esplendidos, vem mostrar ao mundo que governar não é só abrir estradas ou invadir o quintal do vizinho e que a revolução pode ser feita sem queimar as reservas de petróleo ou fuzilar opositores, mas sim com atos, muitas vezes, aparentemente, modestos. Se os americanos fizeram sua guerra civil abolicionista, os franceses derrubaram a Bastilha e proibiram proibir, os italianos estiveram na linha de frente do iluminismo e os ingleses inventaram a revolução industrial, nós, brasileiros, acabamos de inscrever nosso nome no curso da história. Não é uma extorsão qualquer de bicheiro, a derrama fiscal, o patrulhamento à liberdade de expressão, nem a maior taxa de juros do mundo ou a eleição de um severino qualquer para o terceiro cargo da República que irá mascarar o brilho desta contribuição para o nosso papel no mundo.
Se vocês não sabem, desinformados e negativistas que são, saibam que o nosso presidente amanheceu invocado e, consciente da necessidade de realizar as reformas fundamentais que garantiram a vitória da esperança contra o medo, criou, duela a quem duela, o Comitê do Uso Sustentável da Sardinha Verdadeira. Ele é composto por cinco Ministérios e mais a Pastoral da Pesca, gente experiente que milita neste negócio desde o milagre de multiplicação dos peixes, quando estavam vazias as redes dos pescadores, como estão vazias os bolsos dos brasileiros. Olhem que não foi de uma sardinha pirata, o que certamente fortaleceria a economia informal, mas a sardinha verdadeira, aquela com patente registrada, protegida e enlatada.
Como cidadão e patriota aproveito e ofereço uma modesta contribuição. Sugiro que o comitê de sábios use a sigla de CUS-SV (atenção revisão é CUS mesmo. Bem, não temos revisores, mas eu sempre lia isto no Rubem Braga e no Drummond e morria de inveja e vontade de um dia escrever isto). Acho, inclusive, que este CUS pode ser o embrião de abertura de uma série lenta, gradual e segura de novos CUS, que transformarão o país e as noções de relevância administrativa. Senhores, finalmente o nosso líder nos fará dar um salto à frente do primeiro mundo que, se quiser nos acompanhar, terá que endurecer e sem perder a ternura ou o capital especulativo, entrar com tudo atrás de nós. Você tá rindo não é? Ria enquanto pode, pois cada brasileiro ainda será chamado a dar o seu. Apoio, é claro.





Comments: (alternativo)


8:23 AM - post nºPostado por Insensato

Sexta-feira, Fevereiro 25, 2005


[4:55 PM]

Aniversário

Obrigado a todos que deixaram suas mensagens de parabéns aqui no blog, ou ligaram e mandaram e-mail. Aceito também vale transporte e ticket refeição. Agora com tração nas quatro( 4x4) não derraparei mais nas curvas...




Comments: (alternativo)


4:55 PM - post nºPostado por Insensato

Quarta-feira, Fevereiro 23, 2005


[9:43 AM]

Uma coisa dificil é sair de uma relação e não carregar as sequelas do mesmo para as relações posteriores ou não permitir que ele sirva de referencial para suas opiniões e ações.A medida que as histórias vão se repetindo mais coisas vão ficando coladas a pele. E tem vezes que fica insuportável carregar ou enfrentar todas estas marcas


Memórias

Todas me chegam
com longas histórias para contar.
As grandes navegações,
as provas circunstanciais
e a alma de dia chuvoso.

Todas me vêm
com inomináveis memórias
e antigas febres.

E sigo desfeito em espera
do que me excede e cabe.





Comments: (alternativo)


9:43 AM - post nºPostado por Insensato

Sábado, Fevereiro 19, 2005


[9:14 PM]

Eu vi teus olhos
De antigas tempestades
Eu vi teus olhos
Com as redes estendidas
Eu vi teus olhos.

E soube que iria morrer
No mar...






Comments: (alternativo)


9:14 PM - post nºPostado por Insensato

Sexta-feira, Fevereiro 18, 2005


[6:40 PM]

Deus, o DNA, ou a natureza, deviam nos poupar de certos defeitos. Como, por exemplo, continuar fazendo o que não tenho mais forças, o que não posso. Eu sou meu grande mal.




Comments: (alternativo)


6:40 PM - post nºPostado por Insensato

Sábado, Fevereiro 12, 2005


[11:41 AM]

Fastio da carne

Embora o título possa sugerir este não é um artigo sobre o agro-negócio, nem os mais cáusticos precisam achar que isto é é uma mudança de lado na admiração da espécie, mas é que toda vez que termina o carnaval eu me sinto como se tivesse abusado na churrascaria rodízio e amanhecesse com ressaca alimentar.
É incrível a fartura de carne exibida pelas tevês, a competição para ver quem mostra mais centímetros de corpo em menos roupa, quem mexe mais despudoradamente ou de forma mais lasciva, numa sensação de cópula coletiva que deve realmente levar estas mulheres a algum tipo de êxtase inimaginável. Impressiona-me a disposição das mulheres para ficarem nuas. Um mínimo cafuné na cabeça (uma foto, uma luz de TV, um canto de revista, um sanduíche na barraca da feira) e lá vão elas arriando a calcinha e exibindo seus cobiçados predicados femininos, transformando leitores e espectadores em arqueólogos de sofá ou banheiro, capazes de visões apocalípticas e generalizadas de úteros e adjacências. Não demora e teremos uma microcâmera presa aos pelos pubianos e um medidor de umidade acoplada a estas modelos, decifrando os mistérios e segredos vaginais de um desfile apoteótico.
Não que a nudez já não fosse uma disposição ancestral feminina, mas ela tinha certa limitação às delicias das alcovas. Parece, no entanto, que o olhar de um só já não basta, é preciso uma multidão vendo, esquadrinhando, salivando feitos lobos famintos diante de seus corpos milimetricamente perfeitos, para que só assim elas se sintam realizadas, num voyeurismo narcíseo cada vez mais universal. E olha que antes a mulher só era admirada naquilo que era uma paixão e cobiça nacional. Com o advento do silicone, hoje tão popular quanto puxadinho em laje, ou grupo de pagode, a mesma passou a ser avaliada e medida em frente e verso, ou lado A e B.
Esta mania de peitão aconteceu por falta de referência dos valores tipicamente brasileiros, de não tratarmos com o devido respeito a cultura sexual tupiniquim, o que levou a adoção de medidas e gostos americanos, talvez porque o carnaval carioca seja cada vez mais pra turista ver e elas estejam tentando satisfazer o consumidor estrangeiro. Acontece que, mais uma vez, estamos seguindo a máxima de todos os governos nacionais, das mais diversas estirpes, tendências ideologicas e carateres, de que o que é bom para os Estados Unidos também é bom para o Brasil. Ledo e calípigio engano. Aliás, esta fartura no air-bag, esta comissão de frente exagerada e antinatural está desvalorizando a verdadeira beleza da mulher brasileira. Esta não é uma questão periférica, um assunto apenas de fundo. A bunda nacional, como o gol de bicicleta, é nosso patrimônio ocular. Não podemos cuspir no prato onde comemos, nos lambuzamos e nos fartamos por tantos séculos. Até porque a bunda nunca é trágica, como dizia o insuspeito Drummond.
Acontece que a cumplicidade da mídia tem levado a exposição farta da carne carnavalesca como se beleza e encanto fossem medidos em centimetragem e não por um quesito de elaboração divina: a harmonia conjuntural. O aumento dos espaços de exibição e a liberalização cada vez maior de tudo que é ilegal, imoral e que engorda, e que pode ser mostrado na TV - inclusive o sexo semi-explicito e as taxas de juros-, tem levado a um exagero tal, que ao fim da folia carnavalesca e micaretesca, eu me sinto como se tivesse saindo de uma overdose sexual, de um açougue onde a moral comportamental é fatiada e servida em closes. E, assim, toda quarta feira de cinzas, eu acordo com fastio da carne. Bem, pelo menos a quarta-feira inteira. Que o próximo carnaval não demore.





Comments: (alternativo)


11:41 AM - post nºPostado por Insensato

Segunda-feira, Fevereiro 07, 2005


[4:33 PM]

MOÇA COM BRINCO DE PERÓLA: filme imperdível. De Peter Webber, baseado no romance de Tracy Chevalier, que mistura romance e ficção para contar a história da criação deste quadro que é considerado a "Mona Lisa Holandesa". A fotografia de Eduardo Serra é impecável. Perfeita. Ele recria em cada cena o ambiente das pinturas de Veemer, tendo sido premiado com o Oscar. O figurino é exemplar. A história é contada tanto pelo que é dito como pelo insinuado e de forma tão plasticamente bela que traz um encanto irresistível. Scarlet Johansson como a garota de 16 anos que vai trabalhar na casa do pintor tem uma interpretação magistral. Apaixonante. O final é súbito. Dez anos depois encontrarmos Griet no mercado de carne e sabemos que destino ela escolheu. È quando ela recebe os brincos enviados por Veemer, que morreu aos 43 anos, e deixou expresso no testamento que estes lhe deveriam ser entregues. È uma história de amor marcado pelas convenções da época e, talvez, imortalizado numa obra de arte de rara beleza. Filmaço.







Comments: (alternativo)


4:33 PM - post nºPostado por Insensato

Quinta-feira, Fevereiro 03, 2005


[8:17 PM]

Escolhas

Abriu a porta. Era inevitável. Os ossos doíam, antecipadamente, pelo gesto. Nunca havia se despedido de tanto. Mas só lhe restava a sobrevivência. Sabia que tinha sido a última vez. Não podia continuar presa ao insustentável. A escassez do cotidiano. Não haveria mais vozes. Nem angústias. Tomaria a vida sem receios. Havia feito a escolha. Entrou em casa. Fechou a porta. Precisava preparar o jantar para a família que lhe esperava.




Comments: (alternativo)


8:17 PM - post nºPostado por Insensato