Um lugar de palavras no meio do nada

Sábado, Janeiro 29, 2005


[10:46 PM]






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Sexta-feira, Janeiro 28, 2005


[7:47 PM]

O cheiro dos livros


As páginas dos livros recendem ao teu cheiro. Abrí-las é percorrer novamente o alfabeto de teus desejos, de teu amor. Como se as palavras fossem teu manto e veste única e a leitura dos dedos sobre as páginas tocassem tua nudez. Assim, outra vez, eu sacio tuas vontades e domo teus receios, inscrevendo meus sonhos, minha história do mundo, minhas necessidades de homem na tua memória. E, então, apaziguo minhas dores de homem, na delicadeza de tua pele, na inocência e abismo de tua boca, na paz de tuas coxas de dona. Sei que minhas guerras se renderam ao teu jeito de quem fia o mundo inteiro e a tua posse, de quem se inscreve inteira, completa e irreversível, nas terras do outro. E me farto desse teu cheiro, de mulher, que não me deixa. Que poreja e alucina. Banquete e escassez. E o perfume em cada folha alardeia, através dos tempos, teu nome a todos os cantos de tua ausência.





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Terça-feira, Janeiro 25, 2005


[10:04 PM]

Acalanto para uma mulher esquiva


Semeio o trigo das esperas
e o acalento com palavras grávidas
e orações insanas.

No santuário de tua carne
apascento meus sonhos de fúria.

Mas sei que tudo é meio e
não fim, em tua língua pagã.






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Sábado, Janeiro 22, 2005


[8:47 PM]

F O G O Poema de Francisco Carvalho


Fogo é esse aroma
de tua pele
sob a alegoria dos vestidos
fogo é o teu hálito
de fera no cio
a labareda se alastrando
em tua boca
tua língua de coral
devorando os
pássaros da libido
fogo é teu sabor de fruta
cítrica, a revoada
dos teus gestos
se libertando para as
liturgias do amor
fogo é o teu santuário
de carne, sob
as relvas do pecado
fogo é teu dorso
de serpente venerável
tua nudez de égua
do faraó, teus
olhos subjugados
às divindades da fúria.







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Sexta-feira, Janeiro 21, 2005


[9:06 PM]

Máxima e minimas

Para quem anda comendo pelas beiradas:

" Cachorro bom de ovelha só morre de tiro"




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Quarta-feira, Janeiro 19, 2005


[2:07 PM]

Viagem

Tive uma semana de férias. Eu sei que ninguém está interessado nas minhas férias, mas só de provocação eu ..não conto. Foram férias precoces. Daquelas que mal entraram já estão terminando, mas mesmo assim, uma semana longe da espécie humana competitiva já alivia. Uma semana sem que o mundo dependa de você ( eu sei que depende mas disfarço bem) sem o desgaste das decisões e escolhas. Aliás, não há nada mais desgastante que decisões, a não ser que seja para optar entre quatro ou sete no palitinho, ou se voce tiver bala na agulha, ou um pai rico o que é a mesma coisa, entre um Amarone um Brunello de Montalcino. Bem, se não tiver pai rico que tenha um contrabandista amigo. Ao voltarmos os problemas continuam do mesmo tamanho, mas de algum modo, de algum modo, parecemos mais capazes de enfrentá-los. É uma ilusão, que passa rápido, mas tudo vale a pena se a ilusão não é pequena e o manequin dela é 37. Deveriamos ter um decreto, nos direitos universais: todo mundo fica obrigado a descer do mundo, por 30 dias. Todo mês.




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Quarta-feira, Janeiro 12, 2005


[3:33 PM]

Comendo pelas Beiradas



Nada mais perigoso, na superfície terrestre ou abaixo dela, do que uma mulher enfurecida. Nem tão ameaçador, desarmado, quanto esta, quando resolve passar algo a limpo. Nunca imaginamos que a matéria-prima de nossas costelas contivesse material tão explosivo, mas Deus, quando escolheu esta parte de nossa anatomia para criá-las, certamente que não usou o modelo teste. Não sei se cada costela tem um teor específico, daí a variação entre elas, mas é certo que não sobreviveríamos sem as mesmas, afinal só elas são capazes de dar a mais perfeita sensação de unicidade que um homem pode provar, qualquer coisa tão complexa e perfeita quanto um módulo lunar se acoplando no espaço sideral, deixa-me ir livrando minha cara que eu não sou besta.

O problema é que elas, conhecendo bem a espécie masculina, ou as outras, desenvolveram um agudíssimo desconfiometro, uma espécie de radar amoroso e sexual, hipersensível. E nada atiça mais seu sistema defensivo do que a possibilidade, ainda que remota, que seu homem possa preferir o canto de sereia de uma outra qualquer, mesmo quando o xuxu marital já não merece grande destaque na alimentação doméstica. Até porque uma mulher só tem um adversário à altura: outra mulher.

Peço calma às costelas mais intempestivas que me lêem, que nada tenho contra esta monumental criação. Certo que Deus, depois de Eva, deu seu trabalho por terminado e nem sequer deixou um telefone para fazermos um recall, caso alguma avaria fosse detectada em qualquer uma das séries produzidas, mas ele deve sabe o que faz, embora a gente aqui nem sempre saiba e tenhamos que nos virar sem um manual de instruções, um sistema de test-drive, um curso rápido com noções básicas de dirigibilidade que facilitasse nossa lida.

Foi a ausência deste treinamento e o desconhecimento do comportamento feminino que botou o Badogue em uma enrascada, no fim do ano.

-Bem, hoje tem o amigo secreto da empresa, boca livre com a família, que eu não vou perder por nada.

A festa era em um restaurante reservado. O espaço foi decorado com banners da empresa, mensagens valorizando a família, pregando a convivência saudável, a tolerância, numa produção digna de qualquer livro de auto-ajuda. Badogue era popular, habilidoso, com papo de quem vendia geladeira a esquimó, e falou com todos presentes. Os sorteios começaram e Zezão, um daqueles que não leram o manual, pronunciou as palavras da perdição.
-Meu amigo secreto é um perigo. Vai chegando mansinho, arrodeando, ajeitando e quando a gente vê já deu o bote. É um mineirinho. Vive comendo pelas beiradas!

A galera gritou o nome de Badogue. Ele recebeu o presente, fez sua parte e voltou pra mesa. Foi o tempo de sentar e sentir o braço em carne viva onde a mulher tinha enterrado as unhas.

- Você vai explicar tudo seu cachorro. Eu quero saber quem você anda comendo pelas beiradas.

- Meu bem o que é isso. O chefe ta aí, olha minha promoção.

- Sua promoção que vá pro inferno. Eu quero saber quem são as vagabundas. Deve ser tudo mingau de festa pra você comer desse jeito.

- Você entendeu errado. Calma. Zezão explica aí o que você quis dizer...

Com o pau comendo solto Zezão voltou ao microfone.

- Senhora, eu só quis dizer que Badogue é um grande vendedor, que chega no cliente de mansinho e quando ele percebe já tirou um pedido. É por isso que ele vai comendo pelas beiradas. Ele tem malícia e...

- Ah! É malicioso não é? Só podia. É por isso que anda empanzinado de tanto comer galinha pelas beiradas. E em casa não quer nada.

- Cala a boca Zezão. Cala a boca. Pelo amor de Deus!

O amigo secreto terminou cedo com uma chamada nominal. Ninguém sabia onde doía a costela alheia e melhor não arriscar. Badogue pra salvar o casamento teve que deixar a empresa e a promoção. E também o mais difícil: de comer pelas beiradas.





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Terça-feira, Janeiro 11, 2005


[1:14 AM]

Escolhas

Justificando a fama de mau 2004 arregaçou as mangas e fez um bota-fora de arrasar registrando um dos piores desastres naturais do planeta em um ano que já trazia na memória a tragédia terrorista. O dilúvio asiático deixa a Arca de Noé da ONU à deriva, visto que o dinheiro arrecadado não corresponde ao gasto em uma semana de qualquer guerra mixuruca organizado pela bandidagem imperial. Ainda assim o mundo anônimo e necessitado se mobilizou pelas vítimas, mostrando que a espécie ainda é solidária, ao menos na tragédia, e que alguma esperança deve ter o dever de resistir.
Apesar do final apocalíptico existe uma expectativa inexplicável de otimismo com 2005. Não que haja indicadores sugerindo haver qualquer benesse depois da tempestade, mas a expectativa existe, seja uma possibilidade real ou uma mera ilusão ditada pela mudança cósmica do último instante de um ano. Afinal sobreviver a um ano de balas perdidas, incompetência administrativa, ganância política, parábolas lulistas, aumento de impostos, a lista de amantes da Wanessa Camargo e a sinceridade fictícia do Faustão é de comemorar de joelhos.
Parece também que o tsunami que deslocou o eixo de rotação da terra em 2,5cm e deixou o ano um milésimo de segundo menor - o que nos fará falta no carnaval-, deixará alguma influência. Especialistas acreditam que esta mudança na inclinação da terra possivelmente deve explicar a acentuada pendência do governo petista para a direita pois fato de tal envergadura ideológica só pode mesmo ser explicado por um fenômeno cosmológico.
Nem tudo, entretanto, dependem das grandes mudanças universais. As principais devem acontecer internamente, nos nossos pequenos mas significativos movimentos pessoais. Afinal estamos aí pelo quinto ano do século e já nos é possível identificar o jeitão do mesmo. Não que uma data, por si só, altere nosso curso, mas é preciso aproveitar o simbolismo deste inicio para fazer as escolhas necessárias. Deixar que no terreno em que a tempestade de erros e falhas varreu todas as possibilidades se instale algum tipo de esperança. Não destas esperanças fantasiosas, mas daquelas simples, reais, amenas, que traga ao exercício cotidiano a delicadeza afetiva que liberta e tranqüiliza. Que cada um possa retomar seus movimentos naturais, sem pesos e prisões invisíveis, valorizando os pequenos achados, a beleza das coisas possíveis e realizáveis, mais do que do inalcançável. Que não se mude, que nossa rotação tem eixo mais difícil de ser modificado do que o do planeta, mas que se pode dos excessos, dos desperdícios, dos abusos, daquilo que pode ser a gota que falta. E que tenhamos atenção redobrada nos gestos, no que tomamos do outro e no que damos de nós próprios. E que o Deus de sua fé, aos que têm, nos proteja da fúria da natureza e dos homens.





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Sábado, Janeiro 08, 2005


[11:07 AM]

Sonho de consumo


Quero a lua inaugural
récem-nascida do oriente
com os cabelos lavados
e inocência de debutante.

Quero a primeira lua da noite
aquela que os amantes ainda não
mentiram em seu nome.





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Quinta-feira, Janeiro 06, 2005


[6:19 PM]

Escrevo este poema há muitos anos. Tive um primo que adotou a eutanásia autonoma. Viver às vezes é uma merda. E este poema´nunca parece terminado, mas foi a forma mais próxima que cheguei do que quero. Mas se me encher muito eu o deleto.



Labirintos



Tinha longos dezoito anos
e sabia nada dos vastos infernos
que nos habitam e atormentam,
quando o tiro único,
o tiro metafísico, o metatiro
calou seu ouvido.

A bala inexplicada.
Exata.

Errática.
Verborrágica.
Atravessou o labirinto dos pensamentos.

A bala,
anatômica,
alojou-se no labirinto de sua cabeça.

Seu corpo foi encontrado entre
os animais, que pastavam indiferentes
a plantação, de capim e estrume.

Foi descoberto ao fim da tarde
fitando o sol que aos poucos morria,
sem nada entender dos vastos infernos
que nos rodeiam e tentam.

Deixaram-no sobre a dura pedra
do curral de sua casa.
Pai , filho e calvário.
A santissima trindade...

(Que ninguém sabe dos vastos infernos de um pai)

Exaustivamente seu pai o lavou
com as mãos calejadas
de paternidade e rudes.

Exaustivamente seu pai o lavou
com a mangueira que lava o sangue do
matadouro do curral.

A arma era de família
honesta e insuspeita como as armas
de familia.

E nenhum motivo foi revelado
nem armagedon ou ventos de ameaça.

A vida continuou funcionando regularmente:
os que oram frequentaram suas dúvidas habituais
e as putas não ofereceram nenhum desconto.

Os deuses permaneceram todos indiferentes e
não anunciaram nenhuma maldição.

Nenhuma ira secreta de amantes.

Nenhum vendedor de indulgências
anunciou escolhas.

Era uma tarde comum como tantas iguais.
E as portas da igreja se mantiveram fechadas
ao seu corpo sem razões.

Ninguém notou
os demônios tatuados na sua alma.

A bala foi a saída do labirinto.
Dos secretos infernos que nos atormentam.





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Terça-feira, Janeiro 04, 2005


[10:56 AM]


Penúria

Sou espécie estranha. Não tenho estações definidas. O último verão aconteceu naquela noite em que ela, dançando, dilacerou o vestido e o mundo nunca mais foi o mesmo. Desde então são longos os invernos. Às vezes quando mais tenho viço é nos dias abafados, quando o mormaço incendeia o ar e o vento devassa as árvores, sem complacência ou pudor. Quando o cheiro da terra é içado por chuva ligeira e o ar se lambuza de reminiscências e da fragrância de paz antiga e inocências. Como as folhas pequenas e a poeira da memória não tenho pouso, ou tempo. Vivo ao desencanto dos olhares. E, a cada mudança, me desfaço de um antigo costume. Já não rio às quintas-feiras e, em Outubro, morro sempre no fim dos filmes. Vivo da fartura do que não possuo, do que me recuso a ter, do que não serei. Alimento-me apenas do que imagino. Ração mínima. Cumpro ciclos. Até o derradeiro. O da penúria...





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[10:56 AM]

Retorno

O ano passado teve batata quente demais e minha paciência morreu queimada. De tanto que tive que renunciar aos meus excessos e refazer meu tempo e coisas. E ainda estou reordenando-as. Por isto, entre outras coisas, tive que fechar o blog Aldeia Nua subitamente, ainda que agradecido às 20.000 visitas e leituras. Algumas pessoas mais generosas e outras exageradas ( como a Meraluz) me cobraram o retorno ( tem gente que não consegue viver sem uma boa droga) , ainda que em outro espaço mais reservado e protegido. Bem, vou tentar voltar, sem a obrigação de texto, teor, qualidade ou tralha equivalente. Não terei fidelidade diária que isto é coisa de cartão de crédito. Venho sem compromisso, ao acaso, quando for possível. Aos que vierem para a visita peço que nada esperem. Até porque quem espera nunca alcança.




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